Os confrontos recentes ocorridos em diversos países por causa da alta nos preços dos alimentos devem prosseguir nos próximos meses, de acordo com especialistas. Continuaremos a ver este tipo de incidentes, especialmente em centros urbanos, onde a população se vê impossibilitada de comprar a comida que costumava adquirir, afirmou à BBC Brasil Gregory Barrow, porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU (WFP).

"Existe uma possibilidade muito real de instabilidade social e essa é uma ameaça que o mundo deve encarar com seriedade."
No início da semana o subsecretário-geral para assuntos humanitários e coordenador de operações de emergência da ONU, John Holmes, havia dito que a alta nos preços dos alimentos pode trazer conseqüências graves à segurança de vários países.

Crise global
Desde meados de 2007, os preços dos alimentos aumentaram em média 40% nos mercados mundiais e o de matérias-primas básicas como o trigo, duplicaram.

Essa situação acabou causando revoltas populares em vários países, como Camarões, Moçambique, Haiti, Costa do Marfim, Uzbequistão, Iêmen, Bolívia, Indonésia e Egito.

Aqui no Egito, nos últimos meses pelo menos quatro pessoas morreram em tumultos ocorridos por falta de pão em padarias populares.

Esta semana, uma pessoa morreu em dois dias de greve em protesto contra o aumento dos preços.

Revisão
O porta-voz do Programa Mundial de Alimentos da ONU afirmou que os cálculos feitos em junho de 2007 sobre o quanto custaria para alimentar as 73 milhões de pessoas em 78 países que são atendidas pela agência tiveram que ser revistos por causa da alta.

"Calculamos que isso (o orçamento para 2008) custaria US$ 2,9 bilhões, mas isso agora já está orçado em mais de US$ 3.4 bilhões", dizze Barrow.

O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick declarou que, a menos que países ricos forneçam fundos, "muitas pessoas vão passar fome". Ele afirmou que 33 países já enfrentaram problemas sociais por causa da crise.

Alívio
"Esperamos que os preços dos alimentos comecem a se normalizar em 2009", afirmou à BBC Brasil, Abdul Abbassian, secretário para grãos do Fundo da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

"Temos visto que fazendeiros de vários países estão plantando o que dá mais dinheiro, justamente os itens que estão faltando. Calculamos que isso resulte em uma produção suficiente dentro de uma ou duas temporadas."
"Se o clima se mantiver em certa normalidade, nossas projeções indicam que os preços devem começar a baixar no próximo ano."
Abassian afirma, no entanto, que o mundo deve se preparar para uma nova realidade.

"É importante ter em mente que os preços que os países e os consumidores estavam acostumados eram mantidos artificialmente baixos", diz ele.

"Os preços estavam baixos por causa de subsídios dados a fazendeiros, especialmente na Europa. Esperamos que os preços caiam, mas eles não vão voltar a ser o que eram."
O aumento da oferta, previsto pela FAO, deve ainda ajudar a estabilizar os mercados.

"Um dos problemas é uma certa indecisão de governos que não sabem se compram alimentos agora, porque os preços podem aumentar ou se esperam eles baixarem", disse Abassian.

"Calculamos que, além de diminuir, os preços devem flutuar menos."
Abassian afirma que, embora a crise cause instabilidade em alguns países, outros estão se beneficiando.

"O Brasil é um exportador e um dos maiores beneficiados da alta de preços. Os fazendeiros brasileiros de soja, milho e cana-de-açúcar, devem continuar a se beneficiar."

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