Santiago do Chile, 26 jun (EFE).- Salvador Allende Gossens, presidente do Chile entre 1970 e 1973, pagou seu compromisso político com prisão, exílio, e morte - em 11 de setembro de 1973 durante o golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet.

Nascido em Valparaíso em 26 de junho de 1908, Allende era filho de um advogado e militante do Partido Radical (esquerda), e passou sua infância em Tacna, embora aos dez anos tenha se mudado para Santiago para estudar.

Eleito vice-presidente da Federação de Estudantes do Chile em 1930, teve participação ativa contra a ditadura do general Carlos Ibáñez del Campo. Foi preso no mesmo ano e expulso temporariamente da Faculdade de Medicina, que viria a completar somente em 1932.

Voltou à prisão em 1933, por seu apoio à efêmera República Socialista, liderada por Marmaduke Grove. Meses depois participou da fundação do Partido Socialista (PS) do Chile.

Considerado um "agitador perigoso", em 1935 foi exilado na cidade de Caldera (norte) pelo então presidente Arturo Alessandri. De volta a Valparaíso, em 1936 fundou o Bloco de Esquerda, que daria origem à Frente Popular (FP).

Em 1937 foi eleito deputado, e no ano seguinte fez campanha pelo candidato da FP, Pedro Aguirre Cerda, que derrotou nas eleições presidenciais o conservador Gustavo Ross.

Em 1939 foi nomeado ministro da Saúde, mas a atitude neutra de Cerda frente ao eixo Alemanha-Itália e sua nomeação como secretário-geral do PS provocaram sua renúncia do cargo em 1942.

Em 1940 se casou com a professora Hortensia Bussi, com quem teve três filhas: Carmen Paz, Beatriz (que se suicidou em 1997 em Havana) e Maria Isabel.

Em 1945, foi eleito senador pela primeira vez. Ocuparia posteriormente o cargo em diversas oportunidades, e pôde apresentar nessas ocasiões leis sociais de proteção à mãe e aos filhos, e projetos para a criação do Serviço Nacional de Saúde e do Serviço de Seguridade Social.

Em 1947, Allende deixou o PS e se uniu ao Partido Socialista Popular (PSP).

Novamente no Partido Socialista em 1951, promoveu junto com o Partido Comunista a criação da Frente Popular, coalizão pela qual se candidatou às presidenciais de 1952. Allende só conseguiu 5,44% dos votos. O vencedor foi o general Ibáñez del Campo.

Reeleito senador e já líder da esquerda chilena, em 1957 viu os dois partidos socialistas chilenos (PS e PSP) se fundirem e formarem com o Partido Comunista a Frente de Ação Popular (Frap).

Allende foi candidato da Frap nas presidenciais de 1958.

Conseguiu 28,8% dos votos, três pontos percentuais a menos que o vencedor, Jorge Alessandri.

Em 1959 viajou para Cuba e entrou em contato com Fidel Castro e Ernesto Che Guevara. Allende defendia na ocasião "a via pacífica rumo ao socialismo", que postulava um socialismo democrático e pluripartidário, muito diferente do imposto por Fidel.

Voltou a se candidatar à Presidência em 1964, mas a direita, unida, deu a vitória no pleito ao democrata-cristão Eduardo Frei Montalva por 56,1% dos votos, contra 38,9% de Allende.

Em 1968, como presidente do Senado, condenou a intervenção militar soviética na Tchecoslováquia. Nesse ano viajou à Coréia do Norte, ao Vietnã, ao Laos e ao Camboja.

Um ano depois participou da criação da Unidade Popular (UP), coalizão que integrou socialistas, comunistas, radicais e independentes. Em 1970, como candidato da UP, Allende tentou pela quarta vez chegar à Presidência.

Desta vez, no entanto, recebeu 36,6% dos votos, quase dois pontos percentuais a mais que o conservador Alessandri e nove acima do democrata-cristão Tomic.

Sem vitória por maioria absoluta, o Congresso elegeu o novo presidente. A centro-direita tinha maioria, mas os democratas-cristãos não apoiaram Alessandri. Allende acabou por reunir 153 votos, frente a apenas 35 de Alessandri.

Nas eleições municipais de março de 1971, a UP conseguiu a maioria absoluta dos votos, e quatro meses depois Allende sancionou a Lei de Nacionalização do Cobre, aprovada no Congresso.

Em seu Governo, Allende promoveu a desapropriação de fazendas, a estatização de empresas e bancos, a nacionalização de companhias estrangeiras e a redistribuição de renda, medidas que geraram medo entre os grandes proprietários, desabastecimento e acirramento das tensões políticas.

Em 1972, denunciou à Assembléia Geral da ONU a agressão internacional da qual seu país era alvo. Nas eleições legislativas de março de 1973, a UP aumentou seu apoio popular para 45% dos votos, mas não conseguiu maioria absoluta no Parlamento.

Seus dias de Governo terminaram em 11 de setembro de 1973, com o golpe militar liderado por Augusto Pinochet, então chefe das Forças Armadas, que não duvidou em bombardear o Palácio de La Moneda e invadi-lo com soldados e tanques.

Na sede presidencial, Allende se encontrava com seus mais próximos.

Sobre sua morte devido a ferimentos provocados por arma de fogo persistem várias versões. Uma delas afirma que Allende faleceu combatendo na defesa do palácio. Outra, que foi assassinado quando se encontrava ferido.

Há ainda os que falam que o ex-presidente cometeu suicídio antes de ter de se render. Esta versão ganhou mais consistência depois de o presidente ter dito em rede de rádio nesse dia: "Pagarei com minha vida a lealdade do povo". EFE doc/fr

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