Allende, defensor da via pacífica rumo ao socialismo e modelo para a Europa

Fuencis Rausell Santiago do Chile, 26 jun (EFE).- O ex-presidente do Chile Salvador Allende, que morreu em 1973 durante o golpe de Estado promovido pelo general Augusto Pinochet, apresentou para a América Latina a via pacífica ao socialismo e foi para a Europa um modelo para o eurocomunismo, afastado das teses da ex-União Soviética.

EFE |

Allende, que concorreu quatro vezes à Presidência chilena como candidato de uma aliança de partidos socialistas e comunistas (1952, 1958, 1964 e 1970), se tornou o primeiro político socialista no mundo a chegar ao poder por meio de uma escolha popular.

Apoiado por uma coalizão chamada Unidade Popular, Allende tentou comandar o país em um processo de transição rumo ao socialismo por uma via pacífica e democrática, afastada das teses da Revolução Cubana, apesar de ele mesmo a ter apoiado.

O Governo de Allende aprofundou uma reforma agrária, com a desapropriação de terras, e nacionalizou a mineração do cobre - do qual o Chile é atualmente o maior produtor mundial -, em medidas de grande repercussão que passaram a contar com forte oposição tanto em alguns setores do país como em nível internacional.

O analista político chileno Patrício Navia explicou à Agência Efe que Allende simbolizou a "ânsia por justiça social" com a qual quis fazer frente "às desigualdades que ainda estão presentes na América Latina e à incapacidade dos Estados de dar oportunidades a seus cidadãos".

Segundo o analista, Allende implementou uma "proposta nova" ao tentar promover "uma revolução estatal em democracia", na qual "o Estado assumiria os meios de produção" por meio da nacionalização dos recursos naturais, processos que hoje em dia estão sendo colocados em prática em países como Venezuela e Bolívia.

No entanto, Navia ressalta que a postura de Allende difere da do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, porque este tentou chegar ao poder pela primeira vez mediante um golpe militar.

Segundo o analista, a trajetória de Allende também não pode ser comparada com a do líder boliviano, Evo Morales, porque o líder indígena evoluiu "desde as bases até o poder político", enquanto o presidente chileno "sempre foi um oligarca", nascido no seio de uma família de classe média alta.

No entanto, as políticas de Allende, como agora ocorre com as de Chávez e Morales, tiveram pela frente a oposição dos Estados Unidos, que em plena Guerra Fria e com Richard Nixon como presidente promoveram um boicote econômico ao Governo chileno e apoiaram depois o golpe de Estado de Augusto Pinochet.

As greves constantes, o desabastecimento de artigos de primeira necessidade e os persistentes rumores de um golpe militar contribuíram para criar uma sensação de caos político, social e econômico no Governo de Allende, segundo relatou à Efe o ex-juiz Juan Guzmán, o primeiro a processar Pinochet no Chile.

O golpe de Estado do ditador pôs fim ao trabalho e à vida de Allende, mas o legado deste continuou vigente tanto na América Latina como na Europa, onde os partidos comunistas de França, Itália, Espanha e Portugal lideraram na década de 1970 uma virada rumo ao que ficou definido como eurocomunismo.

Os secretários-gerais dos partidos comunistas italiano, Enrico Berlinguer; francês, Georges Marchais, e espanhol, Santiago Carrillo, apresentaram em 1977 as bases dessa nova corrente, que considerava ser muito difícil promover uma revolução socialista nos países capitalistas e rejeitava apoio incondicional à União Soviética.

Os eurocomunistas propuseram na ocasião a ampliação de sua influência social atraindo as classes médias, o que supostamente permitiria que tivessem acesso, por meio de eleições pluripartidárias, ao Governo e reformassem a sociedade em democracia, compromisso que Allende empreendeu até que o ruído dos fuzis invadisse o Palácio de La Moneda - sede da Presidência chilena - em 11 de setembro de 1973. EFE frf/fr

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