Aliança Shell-Cosan pode ajudar a abrir mercado dos EUA para etanol, diz jornal

A joint-venture entre a Shell e a brasileira Cosan, anunciada nesta segunda-feira, pode ajudar a derrubar as barreiras americanas à importação de etanol brasileiro, segundo sugere uma reportagem publicada nesta terça-feira pelo diário britânico The Guardian. A Shell vai agora fazer lobby com o governo americano para reduzir suas tarifas sobre a importação de biocombustíveis, diz a reportagem.

BBC Brasil |

A Shell e a Cosan, a maior produtora brasileira de etanol, anunciaram um memorando de entendimento para a criação de duas companhias conjuntas para a produção e a distribuição do álcool combustível, num negócio estimado em US$ 12 bilhões.

A reportagem do Guardian comenta que a joint-venture deve fazer da Shell a maior empresa petroleira no ramo de biocombustíveis e poderá dobrar a produção atual de etanol da Cosan, atualmente em 2 bilhões de litros anuais.

Ainda assim, o jornal observa que a união provocou reservas entre ambientalistas, que temem que a elevação da produção de etanol no Brasil provoque o aumento do cultivo da cana-de-açúcar em áreas destinadas ao cultivo de alimentos e leve ao aumento do desmatamento para a produção agrícola.

'Seriedade'
Uma análise publicada pelo diário econômico Financial Times comenta que, com a aliança com a Cosan, a Shell começa a ver "com seriedade" o mercado de biocombustíveis, após anos evitando se envolver nesse mercado.

Segundo o texto do jornal, a empresa anglo-holandesa se dizia comprometida com os chamados biocombustíveis de segunda geração, feitos a partir de palha ou restos de colheitas, mas percebeu que eles ainda estão a anos de ter viabilidade comercial.

Com isso, segundo o Financial Times, a Shell reconheceu que "o etanol de cana-de-açúcar do Brasil é o mais 'verde' entre os biocombustíveis comercialmente viáveis hoje no mercado".

Para o jornal, a multinacional pode estar "apostando que o etanol e outros combustíveis verdes se tornarão obrigatórios no mundo em desenvolvimento nos próximos anos".

"A empresa comprou o acesso a um dos maiores e mais eficientes produtores", diz o texto.

Para o jornal, a aliança não deverá significar uma imediata comercialização do etanol brasileiro no mercado mundial, já que ainda haveria bastante espaço para a ampliação das vendas no mercado brasileiro, que tem uma demanda anual de 3 bilhões de litros do combustível.

Mas, para o Financial Times, "a implicação clara é que a joint-venture, que tem uma meta de produzir entre 4 bilhões e 5 bilhões de litros por ano, um dia vai vender biocombustíveis para motoristas do mundo todo".

Distribuição
O diário americano The New York Times comenta que, com o negócio anunciado na segunda-feira, a Shell deverá seguir os passos da rival britânica BP, que em 2008 se associou a uma outra produtora brasileira de biocombustíveis, com investimentos de US$ 1 bilhão.

O jornal relata ainda que a aliança vai ampliar os negócios da Cosan no setor de distribuição no Brasil, após a companhia ter comprado em 2008 os ativos e o uso da marca Esso no país e de ter comprado no ano passado os postos de gasolina da marca Petrosul.

Segundo o New York Times, "as companhias de petróleo e os maiores investidores globais vêm procurando por parcerias no setor de etanol do Brasil, que é amplamente dominado por empresas familiares com estruturas de propriedade complexas".

A reportagem comenta ainda que a joint-venture entre as duas empresas deve se tornar o terceiro maior distribuidor de combustíveis do país, com 4.500 postos e uma receita anual estimada em US$ 40 bilhões.

Polêmica
O jornal britânico The Times, por sua vez, afirma que a Shell está se envolvendo em uma polêmica por se aliar a uma companhia que havia sido colocada em dezembro em uma lista negra do governo brasileiro, sob a acusação de empregar trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Uma inspeção em 2007 havia indicado que uma empresa terceirizada contratada pela Cosan para cortar cana estaria maltratando os trabalhadores, empregando menores de idade e negando água potável aos empregados.

A Cosan, que chegou a perder contratos de financiamento com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e de venda de açúcar para a rede de supermercados WalMart, deixou a lista negra do Ministério do Trabalho no mês passado, após conseguir uma liminar na Justiça.

Segundo o Times, a Shell afirmou que "a Cosan é líder em melhorar as condições de trabalho e tomou ações prontamente após tomar conhecimento dos problemas envolvendo a empresa terceirizada".

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