Alfonsín ajudou a mudar relação entre Argentina e Brasil, dizem analistas

O ex-presidente da Argentina Raúl Alfonsín, morto nesta terça-feira, aos 82 anos, foi responsável, junto com o ex-presidente do Brasil José Sarney, por estabelecer uma relação de maior confiança entre os dois países, afirmaram analistas ouvidos pela BBC Brasil. Até o início da década 1980, as hostilidades e a desconfiança entre Brasil e Argentina eram frequentes e alguns setores não descartavam nem mesmo a possibilidade de um conflito armado entre os dois países.

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"Antes de Alfonsín e, principalmente durante o período militar, existia a sombra do conflito (bélico) entre Brasil e Argentina", disse à BBC Brasil o escritor argentino Marcos Aguinis, que foi secretário de Cultura durante o governo Alfonsín.

"Alguns militares argentinos diziam que o Brasil poderia querer ocupar a Província argentina de Misiones, e os brasileiros achavam que os argentinos tentariam invadir o Rio Grande do Sul", afirmou Aguinis. Havia, na época, uma preocupação mútua em relação aos programas nucleares dos dois países e um histórico de reclamações oficiais da Argentina contra a construção da usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Estas preocupações, no entanto, terminaram durante os mandatos dos dois presidentes, após visitas aos projetos nucleares dos dois países e a ida de Alfonsín a Itaipu.

Primeiro presidente eleito após a ditadura militar argentina (1976-1983), Alfonsín buscou a integração regional e o fim das diferenças com os países vizinhos, como Brasil e Chile.

"Os anos 1970 foram marcados por uma onda de golpes na região. A Argentina foi o primeiro país deste grupo a retomar a democracia. Raúl (Alfonsín), por convicção democrática, buscou essa integração", declarou o ex-presidente do Uruguai, Julio Maria Sanguinetti, em uma entrevista à TV argentina nesta terça-feira.

Leia também na BBC Brasil: Morre o ex-presidente argentino Raúl Alfonsín
Crise
Quando Alfonsín e Sarney chegaram ao poder, respectivamente em 1983 e 1985, o comércio entre os dois países também era irrisório e estava longe do recorde de US$ 30 bilhões registrado no ano passado.

Os dois presidentes contribuíram para a modificação deste cenário ao assinarem, em 1985, o Tratado de Iguaçu, considerado a base para o nascimento do Mercosul, em 1991.

Foi também durante os mandatos de Sarney e Alfonsín que os dois países adotaram medidas econômicas parecidas, como os planos Cruzado e Austral, que, no entanto, acabaram não obtendo sucesso e mergulharam Brasil e Argentina em um cenário de hiperinflação.

No caso argentino, a crise econômica contribuiu para a desestabilização política do governo Alfonsín, fazendo com que ele renunciasse seis meses antes do final de seu mandato, sendo sucedido por Carlos Menem.

Mas outros fatores além da atuação dos ex-presidentes contribuíram para o início da aproximação entre os dois países neste período, segundo o ex-embaixador argentino em Brasília, Jorge Hugo Herrera Vegas.

"Acho que o partido de Alfonsín (União Cívica Radical, UCR) tinha contato com Tancredo Neves e havia simpatias mútuas. Outro fato importante foi o apoio ilimitado do Brasil à Argentina na crise das (ilhas) Malvinas", afirmou o diplomata à BBC Brasil.

A Guerra das Malvinas, na qual as tropas da Argentina foram derrotadas pelos britânicos, ocorreu em 1982 - um ano antes da eleição de Alfonsín e três anos antes da posse de Sarney.

Aproximação
Além de terem contribuído com a melhoria das relações entre os dois países, Sarney e Alfonsín também se aproximaram pessoalmente.

Segundo colaboradores do ex-presidente argentino, o senador brasileiro foi um dos primeiros a expressar condolências à família nesta terça-feira.

O senador José Sarney também divulgou uma nota oficial sobre o falecimento do ex-presidente argentino.

Em encontros que tiveram, anos mais tarde, em Buenos Aires, os dois ex-presidentes costumavam enfatizar a "amizade" e a forte relação entre os dois países.

Para o historiador e escritor argentino José Ignacio García Hamilton, professor da Universidade de Buenos Aires e autor de diversos livros sobre a história da América Latina, Alfonsín entra para a história da região como um homem que buscou uma via "pacífica e civilizada" para aproximar a Argentina de Brasil, Chile e Paraguai.

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