Albinos são vítimas de superstição na Tanzânia

Lucas Owen Mnubi Dar es Salam, 11 abr (EFE).- Ser albino na Tanzânia pode custar a vida, já que nos últimos meses dezenas deles foram assassinados e partes de seus corpos acabam em um macabro contrabando alimentado pela superstição.

EFE |

Este é um tenebroso costume na Tanzânia, onde idosas também são assassinadas supostamente por serem bruxas e, além disso, existe o contrabando de pele humana.

A falta de pigmentação na pele dos albinos é um estigma em muitos países da África. Freqüentemente, são acusados de bruxaria e sofrem o repúdio de suas comunidades e de seus familiares.

Mas, na Tanzânia, ser albino não tem relação com suspeitas de bruxaria, mas sim com algo mais grave.

"Os assassinos buscam partes de seus corpos", como dedos, órgãos sexuais, línguas e cabelos, afirma o chefe da Polícia, Said Mwena.

Na Tanzânia, país com cerca de 39 milhões de habitantes, estima-se que há em torno de 270 mil albinos. Desde o fim de março deste ano, 15 deles foram assassinados e mutilados.

Segundo Mwena, além dos crimes já confirmados, há outros dois albinos com paradeiro desconhecido.

O assassinato de albinos é um crime associado à mineração, uma atividade de muita importância na Tanzânia, onde há grandes jazidas de diamantes, esmeraldas, rubis e safiras. O país também é o terceiro maior produtor de ouro do continente africano, depois da África do Sul e de Gana.

Acredita-se que as jazidas são o mercado habitual para o contrabando de órgãos de albinos, e as autoridades acreditam que os mineradores de pequena escala são os principais compradores.

Tudo porque, segundo certas superstições, os pedaços de corpos dos albinos dão boa sorte, seja para escapar de morrer nas jazidas ou para encontrar as melhores pedras.

O presidente da Associação de Albinos da Tanzânia, Ernest Kimanya, pediu ao Governo o fim dos brutais assassinatos e a elaboração de um censo deste grupo de pessoas.

"Somos vulneráveis e extremamente carentes de segurança", diz Kimanya.

A região onde foram registrados os últimos casos - nas povoações ribeirinhas do Lago Vitória - também é testemunha de um longo massacre que se desenvolve há várias décadas e que faz outras vítimas: as idosas suspeitas de bruxaria.

Estima-se que a média anual fique em torno de 100 assassinatos, e até agora as autoridades acham que desde os anos 70 mais de 3 mil idosas foram mortas a sangue frio, em crimes cometidos com lanças, facas ou machados.

O perverso ritual inclui a queima das casas das vítimas. Os assassinos recebem como recompensa uma ou duas vacas, entregues pelos líderes comunais por seu "bom trabalho", segundo as autoridades. Em outras ocasiões, a recompensa é em dinheiro - cerca de US$ 100.

Estes crimes vêm sendo registrados em comunidades isoladas da região noroeste do país, situada cerca de mil quilômetros da principal cidade da Tanzânia, Dar es-Salam.

Porém, simultaneamente, surgiu no sudoeste do país um comércio macabro de pele humana - agora praticamente extinto -, que vai além das fronteiras nacionais, buscando mercados na Zâmbia, em Malauí ou na República Democrática do Congo.

Os sociólogos e as autoridades não sabem com certeza o que movimentava este contrabando, mas se surpreendem com o dinheiro que gera, pois um pedaço de pele humana pode chegar até a US$ 400, um valor alto para um país onde a maioria da população sobrevive com menos de US$ 1 ao dia.

As autoridades conseguiram controlar este comércio macabro no final de 2005, mas até então dezenas de pessoas foram mortas e tiveram sua pele arrancada. Três supostos autores destes crimes estão presos.

Em suas operações, a Polícia apreendeu várias peles humanas, que foram levadas para uma delegacia, sob custódia, e expostas publicamente. EFE lo/mac/db

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