Albinos de Tanzânia e Burundi pedem proteção contra assassinatos em rituais

Paloma Almoguera. Nairóbi, 22 mar (EFE).- Mais de 50 albinos foram mortos em rituais mágicos no último ano na Tanzânia e Burundi, onde as autoridades começaram a tomar medidas para pôr fim a este massacre, embora a minoria afetada as considere insuficientes e, algumas vezes, ridículas.

EFE |

O presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete, decidiu este mês instalar urnas por todo o país para que os cidadãos, de forma voluntária e anônima, possam "votar" em seus "suspeitos" de matar albinos, para, uma vez feita uma apuração, deter "os mais votados".

A secretária-geral da Fundação de Albinos da Tanzânia, Ziada Nsembo, disse à Agência Efe que não vê com bons olhos a medida: "É ridícula. Não oferece garantias e servirá apenas para despertar a animosidade entre os moradores".

"Na Tanzânia, já foram detidos 92 supostos assassinos de albinos, mas eles ainda não foram a julgamento. Isso não serve para resolver o problema", disse Nsembo.

No Burundi, a Polícia deteve em 16 de março 10 pessoas que foram acusadas de matar albinos para comercializar seus restos na Tanzânia, onde são usados em rituais de bruxaria.

Apesar de os Governos dos dois países trocarem elogios nos últimos meses e condenarem de forma pública os ataques contra os albinos, Ziada não acredita que o Burundi esteja fazendo "o suficiente".

"Não parece que eles levam estes crimes a sério", confessou, alarmada pelo aumento de assassinatos dos "brancos malditos", como são chamados por seus "carrascos" na Tanzânia e no Burundi.

Pelo menos 10 albinos foram assassinados e mutilados nos últimos seis meses no Burundi e mais de quarenta nos últimos 12 meses na Tanzânia, que tem uma população registrada de 7.124 albinos, "embora este não sejam números reais, já que muitos vivem escondidos pelo medo", apontou.

Insatisfeita com a resposta das autoridades, Ziada iniciou sua própria luta há quase 30 anos, em 1980, quando decidiu fazer parte da Fundação Tanzaniana de Defesa dos Albinos, que, como ela, não sofrem apenas com os efeitos do sol do trópico em sua pele, mas também têm de lutar contra preconceitos e superstições de uma população "ignorante e faminta".

Os feiticeiros das áreas rurais da Tanzânia, especialmente as regiões próximas aos Grandes Lagos do nordeste do país, fazem os aldeões acreditar que "ficarão ricos se matarem um albino, amputarem suas extremidades, arrancarem sua pele e misturarem tudo em uma poção".

"Os bruxos pedem grandes quantidades de dinheiro, entre 20 e 30 milhões de xelins tanzanianos (de US$ 16.000 a US$ 24.000) para preparar a bebida com os corpos dos albinos", acrescentou Ziada.

Apenas nas cidades as condições de vida dos albinos destes países melhoram, pois nelas podem levar uma vida quase como a dos demais: "Em Dar-es-Salam, onde cresci, pude levar uma vida mais ou menos normal, sem me sentir-me atacada", disse Ziada.

"O maior problema está nas regiões mais remotas, onde as crianças albinas nem sequer podem ir ao colégio pelo medo de serem sequestradas no caminho", afirmou.

Fora do Hospital Ocean, de Dar-es-Salam, capital financeira da Tanzânia, onde Ziada tem um pequeno escritório no qual oferece ajuda a outros com o mesmo problema, cinco albinos descansam na sombra e os olhos fechados.

"Nossa visão é muito ruim. O sol danifica nossa pele e as córneas dos olhos. Precisamos de apoio para comprar protetores solares e óculos escuros", disse Ziada.

"Mas o Governo quase não colabora, com uma ínfima subvenção. Tudo que recebemos é de doadores ou de ONGs", denunciou.

Uma das últimas contribuições surgiu de um grupo de homens de negócios locais, que doou à Fundação de Albinos da Tanzânia 350 telefones celulares para que os albinos possam entrar em contato com a Polícia de forma automática caso sejam atacados ataque.

"Esta foi uma bela contribuição, mas não deixa de ser um remendo.

Para que o problema desapareça, é preciso investir na educação e melhorar as condições econômicas dos tanzanianos. É a pobreza que provoca estas atrocidades", conclui Ziada. EFE pa/mh

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