Mar Marín. Costa do Sauípe (Bahia), 17 dez (EFE).- Reunidos pela primeira vez sem a presença dos Estados Unidos e da Europa, os líderes latinos e caribenhos levantaram a voz contra os países ricos e firmaram as bases para a criação da União da América Latina e do Caribe.

A decisão de criar esse organismo continental, que exclui EUA e Canadá e que pretende renegar ainda mais a Organização dos Estados Americanos (OEA), não figura na resolução final da 1ª Cúpula da América Latina e do Caribe, convocada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Costa do Suípe, na Bahia.

O objetivo, segundo explicou hoje o presidente do México, Felipe Calderón, em coletiva de imprensa após a cúpula, é que o grupo comece a funcionar no início de 2010, coincidindo com o bicentenário do começo do processo de independência de vários países da região.

Calderón explicou que o futuro organismo multilateral englobará todos os países da América Latina, desde o Rio Bravo até a Patagônia, e contará com estrutura e funções permanentes.

Esse impulso à integração foi a mais importante decisão adotada pelos líderes reunidos no Brasil, que aprovaram também uma declaração final na qual levantaram sua voz contra os países ricos e pediram que o Primeiro Mundo assuma sua responsabilidade perante a crise econômica.

As críticas que vieram sendo feitas pelos líderes latino-americanos contra os países desenvolvidos e os organismos financeiros multilaterais foram refletidas em um texto relativamente aberto, para não desagradar nenhuma parte.

Na declaração, os líderes expressaram "grande preocupação" com a crise financeira e lembraram que "os países desenvolvidos foram os causadoras da crise e devem assumir os custos de sua solução".

Os países em desenvolvimento, segundo o texto, "não devem ser penalizados por práticas financeiras não sustentáveis", uma idéia sobre a qual insistiram vários participantes da cúpula, como a presidente argentina, Cristina Fernández de Kirchner.

O documento reivindicou a participação dos países em desenvolvimento na construção de uma "nova arquitetura financeira internacional", com uma regulação eficiente e transparência no funcionamento do sistema financeiro mundial.

Entre as medidas para fazer frente à crise, os líderes encomendaram a seus ministros da Fazenda a elaboração de uma estratégia para facilitar o pagamento de intercâmbios comerciais com moedas locais e avaliar a experiência de uma possível moeda comum.

A América Latina pediu também aos países ricos regras estáveis de comércio e a eliminação de subsídios agrícolas. Fora isso, defendeu uma reforma das Nações Unidas para democratizar seus órgãos principais, especialmente o Conselho de Segurança.

O crescimento da xenofobia e a discriminação preocupam profundamente os líderes latino-americanos, que condenaram a "criminalização dos fluxos migratórios e as medidas que atentam contra os direitos humanos dos imigrantes".

A livre circulação de pessoas, de acordo o documento, "é tão importante como a circulação de bens e os fluxos financeiros".

À margem da declaração final, Argentina, Venezuela e Brasil assinaram um texto próprio de condenação ao racismo, a discriminação e a intolerância religiosa.

Além das críticas em direção aos países ricos, responsabilizado também pela mudança climática e suas nefastas conseqüências para os emergentes, os líderes reiteram sua aposta na cooperação sul-sul e se comprometem a analisar fórmulas conjuntas para impulsionar o desenvolvimento.

Sobre política, destacaram seu compromisso com o direito dos Estados de construir "seu próprio sistema político, livre de ameaças, agressões e medidas coercitivas unilaterais em um ambiente de paz, estabilidade, justiça, democracia e respeito aos direitos humanos".

A cúpula também aprovou resoluções particulares que pedem o diálogo para resolver o polêmico litígio entre Reino Unido e Argentina sobre a soberania das ilhas Malvinas. EFE mar/rr

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