Ajuda internacional para população é vendida em Mianmar

Juan Campos Yangun (Mianmar), 22 mai (EFE).- A ajuda internacional recebida por Mianmar não chega a muitos dos desabrigados pelo ciclone Nargis, já que parte é confiscada pelas milícias pró-governo, que depois vendem os itens nos mercados da antiga capital.

EFE |

Em plena luz do dia, várias barracas de comércio na rua empilham sacos de arroz com a logomarca da ONU e as siglas do Programa Mundial de Alimentos (PMA), conforme pôde comprovar hoje a Agência Efe em Theingyi Zei, o maior bazar de Yangun.

Outros postos vendem frutas secas e verduras em caixas que levam o selo "Ajuda do Reino da Tailândia" debaixo de grandes adesivos com imagens de altos hierarcas da Junta Militar, entre eles seu líder máximo, o general Than Shwe.

Enquanto dezenas de voluntários estrangeiros do WFP esperam em Bangcoc que as autoridades birmanesas lhes concedam um visto para viajar às zonas devastadas pelo ciclone, onde são necessários, os comandantes do regime e os comerciantes lucram com o material de emergência doado pela comunidade internacional.

Questionado sobre a procedência do cereal, um comerciante, de origem indiana, limita-se a dizer seu preço: 3 mil kyats, quase quatro vezes mais do que era pago por um saco de arroz antes de o "Nargis" arrasar o país, há três semanas.

E este é o preço dos cereais de pior qualidade, recolhidos antes do ciclone ou nas plantações da metade norte do país, menos férteis que as do delta do rio Irrawaddy.

"O arroz estrangeiro é mais caro porque é fresco, não está apodrecendo como o resto", explica uma idosa que não quis revelar seu nome com medo dos militantes da Associação para o Desenvolvimento e Solidariedade da União (USDA, em inglês).

Segundo ela, esse grupo paramilitar se beneficiaria financeiramente da ajuda humanitária.

Alguns birmaneses temem inclusive mais estas forças de segurança do que a organização paramilitar apoiada pelo regime, e que, em 2003, matou aproximadamente 70 pessoas no ataque cometido no norte do país contra a Prêmio Nobel da Paz Aung San Suu Kyi e seus seguidores.

Usada pelo regime para intimidar opositores e informar sobre qualquer atitude subversiva, seus 24 milhões de filiados patrulham as ruas armados com cassetetes para bater em estudantes, ativistas e, após as manifestações a favor da democracia de setembro passado, também nos monges budistas, até então intocáveis.

A idosa conta que todas as manhãs membros da USDA estacionam seus veículos militares em uma das entradas do bazar e descarregam arroz, água potável e cobertores que expropriaram dos funcionários locais das agências de ajuda humanitária.

"Precisamos dessa comida, mas sinto-me mal se compro porque sei que outros precisam ainda mais", assinala.

Desde que a ajuda começou a chegar a conta-gotas, as ONGs indicam que seus comboios têm muitas dificuldades para transferir alimentos e remédios ao delta, e denunciam que em algumas ocasiões seus trabalhadores foram obrigados a entregar parte da carga ao Exército, como se fosse um pedágio.

O Governo nega e atribui as acusações a "notícias prejudiciais e falsas" da imprensa estrangeira, que quer "destruir a soberania nacional", em associação com a Liga Nacional pela Democracia, liderada por Aung San Suu Kyi.

A Junta Militar insiste em continuar distribuindo a ajuda com seu próprio critério, deixando claro sua escala de prioridades.

Em Yangun, apenas dois policiais vigiam dois cruzamentos em ambos os lados de Theingyi Zei, mas, no próximo e luxuoso Hotel Traders, dezenas de membros das forças de segurança, alguns em exercício e outros à paisana, prestam atenção em cada estrangeiro que entra ou sai.

Perto dali, 20 soldados dormem apoiados em seus capacetes, enquanto meninas lavam os uniformes dos militares em um rio cheio de lixo.

"Mantenhamos com o Tatmadaw (Exército) nossa união forte perante os inimigos que estão dentro e fora", afirma em letras gigantes a mensagem em birmanês e inglês da marquise que pende sobre suas cabeças, recém-levantada novamente depois que os ventos do "Nargis" a arrancaram.

Até agora, pelo menos 78 mil pessoas morreram em decorrência do ciclone, segundo a última apuração oficial, embora a ONU diga que já são 100 mil mortos e calcule 2,5 milhões de desabrigados, tendo a ajuda internacional chegado a menos de 500 mil pessoas. EFE csm/fh/db

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