Ajuda internacional deve forçar o Iêmen a reformas contra Al Qaeda, dizem analistas

Um grande esforço internacional para estabilizar o Iêmen e conter o crescimento da Al-Qaeda no país poderá não atingir os resultados esperados se o governo não promover amplas reformas, segundo analistas entrevistados pela BBC Brasil. Eles afirmam ainda que a comunidade internacional deveria pressionar o presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, a realizar essas reformas e assim conseguir o apoio das diferentes tribos do país.

BBC Brasil |

Segundo os analistas, Saleh é líder de um governo que falhou em unificar o país, fracionado por disputas tribais e insurgência de rebeldes separatistas, com uma economia frágil e a autoridade do Estado praticamente restrita à capital, Sanaa.

Eles salientam que o presidente iemenita tem pouco carisma entre a população do interior do país, por causa da suas manobras em consolidar seu poder político, distribuindo postos-chaves do governo para membros de sua família.

"Os americanos e seus aliados colocarão seu dinheiro e esforços em um presidente que não tem poder sobre o resto do país. Várias tribos importantes no Iêmen não confiam nos americanos e não gostam da proximidade do regime de Saleh com os Estados Unidos", disse Imad Salameh, cientista político da Universidade Libanesa Americana.

Para outro analista, Rami Khoury, da Universidade Americana de Beirute, a ajuda internacional será equivocada caso não combata os verdadeiros problemas e insista na ideia de que apenas dinheiro e envio de armamentos resolverão os problemas.

"A falta de habilidade anglo-americana em lidar com as causas do terrorismo na região parece que se repetirão no Iêmen. Sem uma mudança em suas políticas falhas, pouco se espera de concreto em mais este desafio", salientou Khoury.

Al-Qaeda
Uma conferência internacional foi realizada na quarta-feira em Londres para discutir o risco do aumento da presença da rede terrorista Al-Qaeda no Iêmen.

O país árabe e vários países estrangeiros, como os Estados Unidos e o Reino Unido, concordaram em trabalhar em cooperação financeira para lutar contra a ameaça representada pela rede de Osama Bin Laden no Iêmen.

Segundo Steven Wright, professor-assistente de Assuntos Internacionais da Universidade do Catar, uma pressão internacional já fez com que o governo iemenita iniciasse negociações com clãs opositores ao governo no norte, aliados importantes se o presidente quer ganhar a guerra contra a Al-Qaeda.

"Em longo-prazo, o Iêmen será um desafio para a segurança da região e a comunidade internacional", disse ele, que prepara um dossiê sobre o país árabe e os riscos que sua instabilidade pdoerá representar para a região.

Corações e mentes
Os doadores na conferência, entre eles países ocidentais e do Golfo Pérsico, também farão um novo encontro na capital da Árabia Saudita, Riad, em fevereiro.

O problema do Iêmen, o país mais pobre do mundo árabe, ganhou notoriedade após um atentado frustrado no Natal para derrubar um avião comercial americano, reinvindicado pela Al-Qaeda iemenita.

O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, está no poder desde 1990, quando o norte e o sul do país foram reunificados.

Segundo o analista Imad Salameh, da Universidade Libanesa Americana, o veterano presidente enfrenta duas rebeliões: o ressurgimento do movimento separatista no sul, atualmente o maior perigo para o regime, e uma velha disputa contra rebeldes do clã Houthi, no norte.

"No norte, o Exército iemenita reprimiu violentamente rebeldes insafisfeitos com o tratamento dado a eles pelo governo. Eles são extremamente hostis à Al-Qaeda, mas também não confiam nos EUA e seus aliados".

Salameh explica que várias tribos importantes no país reivindicam mudanças sociais e políticas no Iêmen, reclamando da concentração de poder do presidente e de sua família.

"Uma ajuda internacional ao Iêmen passa, necessariamente, por ganhar os corações e mentes das populações locais, que seriam aliados importantes para enfraquecer extremistas no país", completou ele.

No encontro em Londres, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, disse que os EUA assinaram um acordo de três anos com o Iêmen, para desenvolvimento econômico, social e de segurança.

Ela também declarou que o governo iemenita deveria fazer a sua parte, "promovendo reformas econômicas, direitos humanos, combater a corrupção e construir instituições democráticas".

Terrorismo
Segundo Steven Wright, da Universidade do Catar, o Iêmen é um perigo real para a região e a comunidade internacional por apresentar todos os ingredientes para estimular o surgimento de redes terroristas.

"É o país mais pobre do mundo árabe, sem autoridade governamental e à beira do colapso", enfatizou.

O Iêmen enfrenta um aumento populacional, diminuição de reservas petrolíferas e de água potável, economia frágil e instabilidade e extremismo, que já levou o Exército da Árabia Saudita a fazer incursões em sua fronteira norte.

"Os países ocidentais e do Golfo se deram conta que as redes teroristas poderão atavessar as fronteiras do Iêmen e atingir a própria Árabia Saudita e Omã, comprometendo a segurança das reservas petrolíferas na região do Golfo", disse Wright.

"Mas o baixo carisma do presidente Ali Saleh não sugere que ele conseguirá aliados entre seu próprio povo para lutar contra as ameaças representadas pela Al-Qaeda no país".

Wright sugeriu que os governos da região deveriam ampliar seus órgãos de inteligência e controle das fronteiras.

Em contrapartida, segundo ele, o Iêmen deveria atacar o terrorismo em suas raízes, ou seja, com amplas reformas políticas e econômicas.

No entanto, reformas políticas serão uma manobra que o presidente iemenita poderá não estar inclinado a fazer.

Segundo Rami Khoury, da Universidade Americana de Beirute, se os americanos e britânicos não querem repetir "suas estratégias falhas no Afeganistão e Iraque", eles deveriam pressionar o governo do Iêmen ao diálogo com o resto do país.

"Se o pensamento de ajuda ao Iêmen incluir operações militares, a estratégia já está fadada ao fracasso. A luta tem que ser na base do terrorismo", salientou.

Para Khoury, o terrorismo surge dentro de "sociedades socialmente e economicamente falhas, com imensas disparidades e injustiças sociais.

"Terroristas não emergem do vácuo, mas de sociedades aterrorizadas", completou.

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