Fernando Mullor Bangcoc, 11 mai (EFE).- A ajuda internacional começou hoje a chegar com mais facilidade a Mianmar (antiga Birmânia), mas a Junta Militar birmanesa continua vetando a entrada de voluntários estrangeiros no país e distribuindo, segundo seu próprio critério, as doações.

Com as estradas já liberadas dos escombros e árvores caídas, dezenas de caminhões com material de emergência para os desabrigados seguiram para a região do delta do rio Irrawaddy, a mais afetada pelo ciclone "Nargis", que assolou o sul de Mianmar há uma semana.

O regime permitiu a distribuição das 38 toneladas de biscoitos energéticos confiscados na terça-feira do Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas, e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) informou que um avião com 35 toneladas de material de emergência chegou a Yangun.

Várias organizações internacionais denunciaram os impedimentos das autoridades birmanesas para conceder vistos ao pessoal humanitário, pois o regime alega que não precisa de voluntários estrangeiros.

Apesar disso, o Governo da Austrália prometeu hoje mais US$ 24 milhões para as vítimas, que será divido igualmente entre o fundo de emergência da ONU e um grupo de ONGs.

Segundo cálculos das Nações Unidas, são necessários pelo menos US$ 178 milhões para atender os 1,5 milhão de vítimas durante os próximos três meses.

O ministro de Assuntos Exteriores australiano, Stephen Smith, recomendou que o regime birmanês suspenda as restrições à entrada de voluntários estrangeiros, pois, mudando sua atual postura, as vítimas poderiam receber muito mais assistência da comunidade internacional.

Por enquanto, o PMA e a ONG Visão Mundial Austrália receberam autorização das autoridades de Mianmar para que parte de seu pessoal entre no país.

A organização Oxfam Internacional advertiu que os 1,5 milhão de desabrigados correm sério perigo de ficar doentes, se não receberem atendimento médico e água potável urgentemente.

O grupo destacou que há "todos os fatores" propícios para uma verdadeira catástrofe sanitária, e previu que o número de mortos superará os 100 mil. Caso as autoridades não resolvam a atual situação, esse número pode passar de 1 milhão nos próximos meses.

Enquanto isso, a situação no delta do rio Irrawaddy é desoladora, segundo as testemunhas, que relatam cenas de corpos humanos e de animais ainda amontoados nos mangues, e dezenas de milhares de pessoas vagando pelas ruas com móveis e utensílios.

Até o momento, a Junta Militar admitiu a existência de mais de 23 mil vítimas fatais, 37 mil desaparecidos e 1,5 milhão de desabrigados no sul do país, dos quais 260 mil estão em campos de refugiados.

No entanto, o último relatório do Escritório de Assistência Humanitária (Ocha) da ONU eleva o número de mortos entre 63 mil e 102 mil, para 220 mil o de desaparecidos e para quase 2 milhões a quantidade de desabrigados.

Através de seu aparelho de propaganda, a Junta Militar birmanesa continua escondendo da população a magnitude do desastre.

Os meios de comunicação, controlados pelo Ministério da Informação, só divulgam imagens do líder do regime, Than Shwe, e outros generais ajudando os desabrigados.

A imprensa loca não mostra nem menciona os vários corpos que estão boiando no delta do rio Irrawaddy.

Uma semana após a passagem do "Nargis", a Junta Militar não deu ouvidos à oposição e realizou neste sábado nas regiões não afetadas pelo ciclone o plebiscito sobre o projeto constitucional apoiado pelos generais. EFE fmg/wr/an

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