Ajuda estrangeira põe em risco tradição muçulmana no Camboja

Jordi Calvet. Phnom Penh, 16 jul (EFE).- A ajuda estrangeira se tornou uma faca de dois gumes para a minoria muçulmana do Camboja - os cham -, ao abrir a porta a pregadores fundamentalistas de fora que põem em risco as tradições e a coesão da comunidade.

EFE |

Os petrodólares trouxeram mesquitas e bolsas de estudos aos povoados cham desde a abertura do país, em 1991, mas também chegaram com um puritanismo que obrigou os 500 mil muçulmanos do Camboja a abandonar o modo em que viviam até agora.

O porta-voz de uma das mesquitas de Phnom Penh, Mohammed Sis, admite que há "pequenos problemas" entre a velha e a nova fé, embora também acredite que a ajuda externa contribuiu para a melhor compreensão do Islã.

"Os sauditas nos dizem o que não está certo e, embora algumas pessoas mais velhas resistam à rigidez de seus costumes, no fundo acham que têm razão", conta Sis.

Rituais funerários ou celebrações como o aniversário do profeta são algumas das tradições que os cham foram abandonando pela influência estrangeira.

À perda de uma cultura própria, se soma a divisão interna dos membros da comunidade, em função da influência exterior a que estão expostos.

Salafistas, de origem saudita; e tabligh, corrente nascida na Índia que chegou ao Camboja através da Malásia, são as principais influências islâmicas que penetraram entre os cham nos últimos anos.

"A sociedade cham começou a se separar em função das seitas", explica o antropólogo espanhol Alberto Pérez Pereiro, especialista nesta minoria.

"Antes, os cham se casavam entre eles sem nenhuma dificuldade.

Agora não, o casamento é feito em função de sua pertinência ao grupo tabligh ou salafista", diz o antropólogo espanhol.

"Foram detectados problemas porque nem todos os habitantes dos povos se converteram ao mesmo tempo a alguma das duas vertentes.

Alguns resistem, algumas famílias se rompem e brigam pelo controle da mesquita", acrescenta.

Um concurso de recitadores do Corão organizado recentemente pelo Governo cambojano deixou evidentes as divergências entre ambas as partes.

Enquanto os tabligh assistiram encantados, os salafistas evitaram ir e qualificaram de escandalosa a atuação de um grupo de meninas que interpretaram canções dedicadas ao Profeta em língua cham e a ritmo de pop.

Pérez Pereiro preferiu expor outros problemas: "Os tabligh têm a obrigação de propagar a fé e isso faz com que muitos abandonem durante meses suas famílias. As crianças ficam sem a tutela de seu pai".

Apesar das divergências, todos os cham coincidem em sua preocupação perante o risco de se ver envolvidos com redes de terrorismo islâmico.

Dois episódios protagonizados por estrangeiros puseram em apuros a comunidade.

Em 2002, o indonésio Riduan Isamuddin, mais conhecido como Hambali e um dos líderes do grupo terrorista da Jemaah Islamiya, se escondeu em uma comunidade cham antes de ser detido na Tailândia.

Nesse mesmo ano, três pessoas foram detidas em uma escola corânica de Phnom Penh, acusadas de preparar um atentado contra as embaixadas britânica e americana.

"Nos preocupa a imagem que se mostra dos muçulmanos na televisão.

Nós estamos comprometidos contra o terrorismo, mas não sabemos o que os muçulmanos que vêm de fora podem fazer. Por isso, vigiamos", diz Sis.

Os problemas derivados da ajuda estrangeira muçulmana contrastam com as excelentes relações que a comunidade tem com o Governo do Camboja, um país de maioria budista.

"O Governo nos dá todo seu apoio. Aqui temos tudo o que necessitamos. Podemos nos vestir conforme nossa religião em qualquer parte do país e podemos rezar para Deus com toda liberdade", conclui Sis. EFE jcp/rr

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