Veneza (Itália), 4 set (EFE).- Os cineastas brasileiros Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, que abriram hoje a participação latino-americana no Festival Internacional de Cinema de Veneza, disseram que o Brasil é uma potência emergente não só no plano econômico, mas também no cinematográfico.

"Tenho certeza de que o Brasil é também uma potência emergente no cinema, porque, neste momento, está havendo uma mudança na economia que ajudará também em outros aspectos, como o cinema", afirmou Aïnouz em entrevista à Agência Efe, em Veneza.

"Há dez anos, quase não havia negros na televisão brasileira e agora há. As mudanças na economia vão se refletir no cinema, na maneira com a qual se contam as histórias e quem conta essas histórias. É algo que o povo não fala sobre, mas dentro de cinco anos haverá mais cineastas brasileiros negros", afirmou.

Segundo Aïnouz, o bom momento do cinema brasileiro e suas perspectivas de futuro são fruto também do fato de que o Brasil "se enxerga agora com orgulho de si mesmo", algo que os dois diretores quiseram refletir no filme que levaram ao Festival de Veneza.

"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", longa-metragem no qual os dois cineastas narram uma viagem de 30 dias de um geólogo pelo sertão, abriu a participação latino-americana no festival, dentro da seção "Orizzonti".

O filme é o primeiro dos cinco latino-americanos a serem exibido na 66ª edição do festival, uma quantidade de produções que Aïnouz considera "insuficiente".

"Deveria haver mais. Acho que (os filmes da América Latina) são bons, que algo está acontecendo no cinema latino-americano", afirmou o cineasta.

"Acho que se há um continente onde coisas interessantes se misturam, é a América Latina. Se houvesse uma palavra que definisse a América Latina seria improvisação. E isto se trata de improvisação, de encontrar os modos, de existir", acrescentou.

Neste sentido, Aïnouz afirma que "seria bom, inclusive para a Europa", se houvesse uma maior mistura entre as produções dos dois continentes, já que as europeias são "muito antigas e deveriam deixar-se contaminar por outras formas de cinema não tradicionais, como o latino-americano".

"Uma ideia em tempos de crise econômica é olhar para esses outros continentes, porque nós vivemos sempre em crise. Porque a crise é como nosso dia seguinte. Acho que seria realmente bom estabelecer mais contato entre o cinema da Europa e o da África, Ásia e América Latina", disse.

Segundo Gomes, ele e Aïnouz chegam a Veneza com a intenção de ter contato com outras formas de se fazer cinema e de contar suas histórias, já que a "gramática cinematográfica" é o que mais os interessa.

Depois da participação no Festival de Veneza, que vai até o dia 12 de setembro, Aïnouz e Gomes já pensam em voltar a trabalhar juntos, e, desta vez, seu novo longa tratará o carnaval brasileiro sob uma "perspectiva diferente", segundo os dois diretores. EFE mcs/pd

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