Ainda em meio ao desespero, Haiti sofre com novo terremoto

Javier Otazu. Porto Príncipe, 20 jan (EFE).- Um terremoto de 6,1 graus na escala Richter sacudiu hoje o oeste do Haiti, incluindo a capital, Porto Príncipe, sem que até o momento haja notícias de vítimas, enquanto a população continua em desespero oito dias depois do tremor que levou o país ao caos.

EFE |

Às 6h03 locais (9h03 de Brasília), logo antes do nascer do sol, um barulho surdo acordou quem dormia. O chão e as paredes começaram a tremer. Os poucos que se atrevem a dormir embaixo de um teto fugiram para áreas abertas.

A maior parte dos haitianos ficou sem casa ou com imóveis cheios de fendas e fissuras. Por isso, dormem em espaços abertos como jardins, pátios e praças.

"Eu durmo no chão. Quando senti este novo tremor, comecei a rezar. O que mais podia fazer?", conta Edualdo, de 20 anos.

Paulimé Wilson, um policial que dorme na rua ao lado de sua casa semidestruída para cuidar dos bens que ainda estão no interior da residência, ouviu alguns dos muros rachados caírem, mas nem ele, nem sua família, nem seus vizinhos têm que lamentar perdas ou feridos.

"Aquelas casas que não tinham caído por completo terminaram de cair", conta Moise Petervil, dos bairros de Morancy e Canot, onde segundo ele houve apenas alguns feridos.

Mas o novo tremor, a réplica mais forte das registradas após o terremoto do dia 12 - que já deixou 75 mil mortos e 1,5 milhão de pessoas sem teto - expôs ainda mais o desespero dos haitianos.

O porto da capital haitiana, de onde saem embarcações rumo a Jérémie, no noroeste do país, estava hoje repleto de gente que perdeu tudo e esperava um navio que nunca chega para essa cidade, que ficou relativamente pouco danificada pelo terremoto.

O último navio para Jérémie saiu na terça-feira passada com 700 passageiros e não voltou por causa da falta de combustível que atinge todo o país. Milhares de pessoas ficaram esperando-o com móveis e utensílios.

"Estou aqui há cinco dias, não consegui entrar nos outros navios que saíram lotados. Não comi nada desde então, só nos deram um pouco de água", diz Nadej, uma mulher de 30 anos sentada sobre três bolsões onde guarda todos os pertences que conseguiu salvar de sua casa derruída.

Há pessoas que, desesperadas, ocuparam dois velhos navios enferrujados no porto e os transformaram em suas casas até que alguém as reassente, o que pode demorar meses dada a velocidade da reconstrução do Haiti.

A distribuição de comida, que também acontece com lentidão devido às preocupações de segurança para os comboios, passou a ser a questão mais criticada da ONU e de suas agências no Haiti.

Ao meio-dia, com o sol a pino, centenas de jovens se aproximaram das cozinhas coletivas que a República Dominicana montou na zona industrial de Porto Príncipe, de onde saem diariamente milhares de porções de comida.

O reduzido contingente peruano da Missão de Estabilização das Nações Unidas no Haiti (Minustah) que protege as cozinhas se viu diante de uma inesperada manifestação de jovens raivosos que exigiam entrar para comer.

"Comida, ajuda", gritavam os jovens para os peruanos, visivelmente angustiados, que não permitiam a passagem por medo de que saqueassem as cozinhas.

Segundo Jacobo Cavero, membro do contingente peruano, seu trabalho era garantir a saída dos comboios e impedir que os jovens se aproximassem, pois afirmou que em dias passados atacaram os caminhões e os motoristas logo após deixarem as instalações.

O terremoto de 7 graus na escala Richter aconteceu às 19h53 (Brasília) do dia 12 e teve epicentro a 15 quilômetros de Porto Príncipe. Segundo declarações à Agência Efe, o primeiro-ministro do Haiti, Jean Max Bellerive, acredita que o número de mortos superará 100 mil.

O Exército brasileiro informou que 18 militares do país que participavam da Minustah morreram em consequência do terremoto.

Entre os civis - além da médica Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, e de Luiz Carlos da Costa, o segundo civil mais importante na hierarquia da ONU no Haiti -, foi informado hoje que outra mulher também morreu no tremor, aumentando para 21 o número total de vítimas brasileiras. EFE fjo/bba

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