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Ainda (e agora abbronzato ) Obama

A vitória contra o racismo foi incontrovertida. Primeiro negro na Casa Branca.

BBC Brasil |

Ninguém, nem mesmo um brasileiro, ousou chamar de "pardo", "escurinho" ou "bom cabelo". Pelo menos em letra de imprensa.

Dispenso, ignoro conversa de botequim. Delas deixei de participar há mais de 30 anos. Eram duras, às vezes. Falava-se mal de Deus e do Mundo. Principalmente deste último. O mundo não valia o que o gato enterrava. E coisas assim.

Conheço, ou ao menos, me lembro de nossas gentes. Do que bebem (conhaque Dreher e um chopinho) e de quem falam (mulheres, mulheres, mulheres, dando, dando, dando). Política? Economia? Jeito nenhum.

Juro, no entanto, que houve gracinha com Obama. Eu também, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, já fui moreno como vocês. Nisso nenhuma alusão ao presidente eleito dos Estados Unidos. Que me parece muito simpático, bem-falante, preparado e por quem torci e torcerei nos próximos anos. Anos que nos forem aos dois permitidos viver, bem entendido. Talvez o fato de Obama ter nascido no Havaí e ser filho de pai queniano tenha contribuído para minha mais do que boa vontade. Beiro, mesmo, a admiração.

Agora, sejamos francos, não é só nos meios racistas da Ku Klux Klan (e parem com essa tola pudicícia de escrever Klu; Ku não tem nada demais, é coisa grega e no bom sentido) que correm o que o vulgo chamaria de "chistes e graças".

Aqui mesmo, no Reino Unido, onde não poderia ser maior o prestígio de Obama, já ouvi umas duas ou três. Pesadas. Não pude fazer ouvidos de mercador. Não só pelo motivo de desconhecer como estas sejam, mas como também acho desaforo e prova incontestável de racismo em potencial, se não plenamente ativo, a propagação do que uma gente de mau gosto chamaria de "humor", acrescentando, como tábua de salvação, o rótulo "politicamente incorreto". Ora, tábua nunca impediu ninguém de afundar em seu próprio fel. Portanto...

Ainda agora, aqui mesmo, na BBC, dois apresentadores, de rádio e televisão, andaram metidos em chamados "trotes" de mau - não, de execrável - gosto. Foram devidamente punidos. Pela imprensa, pela própria BBC. Nada mais justo. Não esmiúço os detalhes para não me tornar mais maçante do que já sou.

Acontece que o racismo, com seus pequeninos e mortíferos tentáculos, anda tentando estrangular no berço a arduamente conquistada sociedade multicultural despojada de preconceitos. Não importo onde estejam estas sociedades.

O esplêndido desportista negro Lewis Hamilton, que acaba de vencer (e também é o mais moço) a renhida disputa do prêmio da Fórmula Um, já reclamou mais de uma vez, em alto e bom som, das humilhações por que tem passado. Na Espanha, chegaram a mostrar na televisão, aqui e algures, boa parte da torcida espanhola ostentando ofensivas máscaras de macacos e grunhindo como se touros ou toureiros feridos. Bernie Ecclestone, que detém os direitos comerciais relativos á Fórmula Um, chegou a se referir ao que só se pode chamar de "pouco caso" ao hediondo episódio. Disse que tudo não passara de - lá vem a palavrinha de novo - "piada". Que Hamilton estava criando uma tempestade num copo d'água.

Tá bom, Bernie. Pra cima de moi, jamais de la vie.

A coisa engrossou mesmo, e no nível político, um nível supostamente superior, ainda agora mesmo quando o "controvertido" (e estou sendo generoso) líder italiano Silvio Berlusconi, no decorrer de uma visita à perigosa cidade de Moscou (lá também, segundo consta, desde o tempo dos cossacos, o racismo não constitui novidade), declarou que admirava muito Barack Obama. A imprensa em peso noticiou. Não foi um caso portanto de conversa malsã de botequim. O magnata midiático, de há muito político em tempo quase integral, disse admirar o bronzeado no presidente eleito americano.

Cito literalmente a declaração em italiano, para não pensarem que é futrico ou facécia minha. Nós entendemos italiano. É uma língua neolatina. Feito a nossa. E, num ligeiro parêntese depreciativo, em São Paulo ao menos, exibiu-se, e muito, um grosseiro preconceito referindo-se aos membros da industriosa comunidade, responsável por boa parte do progresso do Estado, referindo-se, dizia eu, referindo-se, repito eu, aos italianos como "carcamanos". Ou seja, porque supostamente apoiavam para valer com as mãos na balança na hora de cobrar as compras. Injúrias que vão ficando, que se perpetuam.

Como nasci em São Paulo, e também já sofri xingamentos como "caipira", "bicho-do-mato" e "ô, loco, sô", deve ter sido por isso que repudiei enojado a declaração de Silvio, que nessa altura chamo pelo primeiro nome apenas para deixar em alta patente meu mais do que merecido desrespeito.

Silvio, em Moscou, disse, na língua a ele legada por Dante e Pirandello, que o Sr. Obama era "giovane, bello e abbronzato". O giovane e o bello, tudo bem. O que pegou mal, muito mal, foi o abbronzato.

Ironias, não, Silvio. Nenhum político que se dê ao respeito comentou, para quem quisesse ouvir, que o senhor costuma fazer implante de cabelo e cirurgia cosmética.

Uma boa coalizão do arco-íris armada de pau daria um jeito em você, Sílvio, já que agora a Itália, como quase todo mundo, passou a ser um país multiracial e multicultural.

Yes they can. Sim, eles podem. Eles podem dar uma "solução" em você, Silvio.

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