Ahmadinejad surpreende ao ordenar enriquecimento de urânio a 20%

Javier Martín Teerã, 7 fev (EFE).- O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, aumentou hoje as tensões e a polêmica sobre o programa nuclear do país ao anunciar que ordenou aos técnicos de seu país que iniciem o processo para enriquecimento de urânio a 20%.

EFE |

Diante de um grupo de cientistas e em discurso emitido ao vivo pela televisão estatal, o líder afirmou, no entanto, que a decisão não significa que o regime iraniano tenha renunciado às negociações com a comunidade internacional.

"Estamos dispostos a dialogar sobre a troca de combustível nuclear. Nós começamos (com o enriquecimento), mas o caminho da negociação permanece aberto", recalcou.

O anúncio foi recebido com decepção em Munique (Alemanha), onde hoje mesmo terminou a Conferência Internacional de Segurança, na qual o programa nuclear iraniano foi amplamente discutido.

O responsável pelo encontro, Wolfgang Ischinger, lamentou que as palavras do presidente iraniano tenha sido pronunciadas poucos dias depois de o ministro de Assuntos Exteriores alemão, Manouchehr Mottaki, dar alguma esperança sobre a polêmica ao afirmar que se estava a poucos passos de um acordo.

De Roma, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, expressou atitude semelhante e pediu ao resto dos países para se unirem para encerrar a "política ambígua" empreendida pelo regime dos aiatolás no Irã.

"Se a comunidade internacional permanecer unida, ainda há tempo para que as pressões sobre o Irã e as sanções tenham o efeito desejado", ressaltou o secretário americano em mensagem que parecia ter um destinatário principal: a China.

Pequim, que compra quase um terço do petróleo que consome do Irã, se mostra reticente em aumentar a pressão sobre o parceiro energético, apesar da insistência de Washington e de outros Governos de que o projeto nuclear iraniano terá consequências perigosas.

Países como EUA, Israel, França, Alemanha e Reino Unido acusam o regime dos aiatolás de ocultar, sob o pretexto de um programa nuclear para fins pacíficos, um projeto de natureza clandestina e aplicações bélicas cujo objetivo seria a aquisição de um arsenal nuclear, alegação rejeitada pelo Governo iraniano.

O conflito se agravou no final do ano passado depois que Teerã rejeitou uma proposta de Washington, Paris e Moscou para enviar seu urânio enriquecido a 3,5% ao exterior e resgatá-lo tempo depois enriquecido a 20%, nas condições necessárias para manter operacional seu reator nuclear civil na capital.

Em uma aparente mudança de posição, Ahmadinejad assegurou na terça-feira passada que seu país não vê problema algum em enviar o urânio ao exterior.

"Nos pediram recentemente que iniciemos um novo diálogo e nos disseram que estão dispostos a nos fornecer combustível enriquecido.

Não será problema enviarmos nosso urânio ao exterior", disse o presidente durante uma entrevista à televisão estatal.

A declaração pareceu surtir efeito na capital chinesa, que se apressou em indicar que as palavras do líder iraniano mantinham aberta uma porta para a saída negociada.

Washington, que busca há meses o apoio de todos os membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas para aumentar as sanções políticas e econômicas ao Irã, voltou a exigir de Teerã que acabasse com o jogo duplo e adotasse uma postura transparente.

O surpreendente anúncio de Ahmadinejad também tinha semeado certa turbulência no próprio Irã, onde alguns setores interpretaram suas palavras como uma cessão perante a pressão externa.

Nesta segunda-feira, antes que o presidente falasse, os iranianos puderam ler no jornal conservador "Kayhan" que a postura de seu país não tinha mudado.

"A posição do Irã sobre a troca de combustível nuclear é a mesma anunciada na conferência de Viena", realizada em 18 e 19 de outubro do ano passado, assegurou um representante do Conselho Superior de Segurança Nacional citado sem identificar pelo jornal.

Na mesma linha de conflito, o presidente do Parlamento iraniano, Ali Larijani, acusou no sábado o Ocidente de utilizar uma "estratégia de dois pesos e duas medidas" para tentar "roubar politicamente" o Irã.

Na última segunda-feira, Ahmadinejad também assumiu uma postura mais dura ao assegurar que os cientistas iranianos desenvolveram uma tecnologia fundamentada no laser para conseguir o enriquecimento.

"Eles utilizam a tecnologia para subjugar os povos. Acham que a ciência é monopólio seu", disse. EFE jm/sa

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