Inteligência é acusada de compartilhar informações com o regime de Muamar Kadafi, permitindo a rendição e tortura de dois líbios

Presidente do Conselho Militar de Trípoli, Abdul Hakim Belhaj, participa de coletina na capital líbia (3/1/2012)
EFE
Presidente do Conselho Militar de Trípoli, Abdul Hakim Belhaj, participa de coletina na capital líbia (3/1/2012)
Agências de espionagem britânicas enfrentarão uma investigação criminal pelas acusações de que a inteligência compartilhou informações com o regime de Muamar Kadafi permitindo a rendição ilegal (sequestro e transferência ilegal de uma pessoa de um país para o outro) e tortura de dois homens líbios, anunciaram autoridades nesta quinta-feira.

Leia também: Iraque transforma confissões de supostos terroristas em programa de TV

Um inquérito criminal foi lançado em 2008 quando um ex-detento da prisão de Guantánamo alegou que agências de inteligência eram cúmplices em sua tortura. O inquérito depois foi ampliado e incluiu as acusações de dois líbios que dizem que os agentes de inteligência compartilharam informações importantes com o regime de Kadafi.

"Nós queremos levar isso até o final - não só pelas considerações da justiça ou da ética, mas porque isso tudo ameaça a segurança dos britânicos", disse o parlamentar conservador Andrew Tyrie, que preside um comitê especial sobre práticas de "rendições extraordinárias".

O comandante do conselho militar de Trípoli, Abdel-Hakim Belhaj, ex-combatente do Grupo de Combate Islâmico da Líbia que se opôs ao regime de Kadafi e recebeu asilo no Reino Unido, afirma que os serviços de inteligência britânico e americano podem ter tido um papel relevante em sua detenção em 2004 na capital da Tailândia, Bangcoc, e em sua transferência posterior para Trípoli.

Documentos descobertos durante a queda de Trípoli revelaram supostos laços entre os espiões de Kadafi e os agentes de inteligência ocidentais. Um documento supostamente contém uma mensagem da agência de espionagem britânica MI6 fazendo referência à 'rendição' de Belhaj, também conhecido como Abu'Abd Allah Sadiq.

"Eu congratulo você com a chegada segura de Abu'Abd Allah Sadiq", dizia a mensagem. "Isso é o mínimo que poderíamos fazer por você e pela Líbia pela relação memorável que temos construído nos últimos anos."

Belhaj, que disse que sua mulher grávida também sofreu abusos, elogiou a decisão desta quinta-feira de se abrir um inquérito criminal. "Eu confio que a polícia irá até o fim dessa história, e vai descobrir não apenas os agentes, mas os ministros que foram verdadeiramente responsáveis pelo sofrimento dela", disse Belhaj. "Até hoje, não consigo entender porque minha mulher que estava grávida foi colocada no mesmo avião e foi abusada também."

Sami al-Saadi, outro líbio que se opôs ao regime de Kadafi, também diz que a agência britânica MI6 teve um papel em sua 'rendição'.

A ONG Human Rights Watch descobriu um esconderijo com documentos no escritório abandonado do ex-chefe de inteligência da era Kadafi, Moussa Houssa, após a queda do regime. Entre eles, havia um faz que a CIA enviou a Houssa em março de 2004, que supostamente mostrava que a agência iria ajudar o MI6 e Kadafi na busca pela 'rendição' de Saadi.

Dois dias após a data do fax, o ex-premiê britânico Tony Blair (1997-2007) foi a Trípoli para se encontrar com Kadafi. Os dois foram fotografados e muiros acordos foram anunciados, incluindo um multimilionário de exploração de gás com a Shell.

A visita tinha como objetivo parcial fazer com que a Líbia abandonasse suas armas de destruição em massa. Ainda assim, Saadi, sua mulher e seus quatro filhos foram levados em um avião de Hong Kong para a Líbia onde foram, então, separados. Saadi afirma ter sido torturado.

Não está claro se as investigações vão chamar Blair para interrogatórios. O ex-secretário de Relações Exteriores, Jack Straw, disse que não sabia nada sobre a 'rendição'.

O chefe do MI6 John Sawers disse nesta quinta-feira que era do interesse da agência lidar com as novas alegações "o mais rapidamente possível para que isso seja resolvido e possamos focar no trabalho crucial que enfrentamos no futuro".

Enquanto os agentes de inteligência britânicos enfrentarão questionamentos sobre as acusações dos líbios, promotores e policiais disseram nesta quinta-feira que não há evidências suficientes de que os espiões tenham sido cúmplices na suposta tortura de ex-detidos de Guantánamo.

O caso que provocou a investigação inicial foi do ex-detido de Guantánamo, Binyam Mohamed. Mohamed, um etíope que se mudou para o Reino Unido quando adolescente, foi incialmente detido no Paquistão, e diz que foi enviado dos EUA para o Marrocos onde foi interrogado e torturado brutalmente. Ele afirma ter falado a uma autoridade do MI5 sobre os maus tratos em 2002.

Keir Starmer, diretor do departamento de acusações públicas, disse que havia uma evidência que agentes de inteligência deram informação às autoridades americanas sobre Mohamed. Mas, segundo ele, havia "evidências insuficientes ao nível exigido em um tribunal penal". Mohamed disse nesta quinta-feira que não esperava que nenhum espião britânico fosse acusado, mas que as novas evidências pudessem surgir e, eventualmente, o caso seria reaberto.

Em um caso separado de cumplicidade semelhante, os investigadores também disseram que não havia evidências suficientes para levá-lo ao tribunal - porque não havia acesso às testemunhas do detido, que foi preso pelas autoridades americanas na base de Bagram no Afeganistão.

Cerca de 3 mil suspeitos de terrorismo continuam presos em casas de detenção secretas onde tem pouco ou nenhum acesso a advogados. Organizações humanitárias criticaram repetidamente as autoridades americanas por falta de transparência e proteção legal para os detidos. A maior parte das acusações de tortura vêm de supostos terroristas que foram inicialmente presos no Paquistão e no Afeganistão, ou foram enviados para países como Marrocos para serem interrogados.

Os agentes britânicos são acusados de passar informação sobre os detidos, mas não de abusos praticados diretamente. Os promotores do Reino Unido e a polícia disse que apesar de as evidências serem insuficientes para levar as acusações criminosas ao tribunal, os casos podem ser reabertos se surgirem novas evidências.

Com AP

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.