Agência de risco rebaixa classificação da Argentina

A agência de classificação de risco Standard & Poors rebaixou nesta sexta-feira a nota da Argentina de longo prazo, em moeda local e estrangeira, de B para B-. A S&P também reduziu a nota da dívida de curto prazo do país de B para C, com tendência estável.

BBC Brasil |

Em comunicado divulgado nesta sexta-feira, a Standard & Poor's afirma que a redução da classificação do país "reflete crescentes preocupações sobre a deterioração no ambiente político e econômico e seu impacto na situação fiscal".

A agência destaca ainda que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da Argentina em 2009 deverá ficará bem abaixo dos 6% esperados para 2008 - resultado da combinação entre "choques negativos" interno e externo.

O texto diz que a crise internacional provocará a queda nos preços agrícolas, cujas exportações são fundamentais para as contas do país.

De acordo com a S&P, a "surpreendente" decisão do governo da presidente Cristina Kirchner de "transferir novamente" o sistema privado de pensões e aposentadorias para o Estado "sacudiu o mercado financeiro local e afetou o nível geral de confiança".

Desafios
A S&P observa ainda que a situação de agora em diante dependerá da "capacidade do governo" de administrar os desafios, que incluem eleições legislativas em outubro de 2009, e a falta de acesso aos mercados internacionais.

"Ao mesmo tempo, embora a reforma do sistema de previdência introduza riscos, espera-se que o governo conte com 1,3% do PIB de recursos extras no ano", afirma o texto.

Ou seja, recursos da previdência privada, que devem ser transferidos para o Estado se o governo conseguir a aprovação do Congresso para a proposta.

A decisão da S&P é anunciada dois dias depois de o Fundo Monetário Internacional (FMI) afirmar que a Argentina não está "habilitada" para receber empréstimos com juros mais baixos a que outros países emergentes poderão ter acesso.

A notícia sobre a S&P chega também um dia depois de um juiz de Nova York bloquear recursos da previdência privada aplicados nos Estados Unidos.

Dívida pública
Na opinião de analistas econômicos argentinos, a redução na avaliação de curto prazo sinaliza que o país poderá ter dificuldades para pagar suas dívidas de 2009 e de 2010 - dois anos que concentram fortes vencimentos da dívida pública total da Argentina.

Entre capital e juros, a previsão é de que a Argentina deverá pagar cerca de US$ 20 bilhões em 2009 e US$ 14 bilhões da dívida pública total em 2010.

"No caso da dívida de curto prazo, na escala da S&P, faltaria apenas a nota C- antes de chegar ao default", diz o analista financeiro Fausto Spotorno, da consultoria Ferreres & Associados.

"Ou seja, essa nota confirma que as contas da Argentina para 2009 e 2010 não fecham, já que o país não tem esse dinheiro hoje e não tem acesso ao mercado financeiro (para conseguir empréstimos)", acrescenta.

Segundo Spotorno, o superávit fiscal total do país neste ano é de US$ 5 bilhões.

Dívida
Analistas afirmam que a Argentina está hoje em melhores condições do que em 2001. Hoje, por exemplo, o Banco Central conta com reservas em torno de US$ 46 bilhões, bem acima do que tinha no ano da histórica crise enfrentada pelo país.

Mas tecnicamente a Argentina permanece em default. Apesar da reestruturação do pagamento da dívida suspenso em 2001, o país ainda não pagou o Clube de Paris e grupos de investidores que não aceitaram a oferta apresentada pelo governo em 2005.

"Nossa situação é muito melhor que a de 2001", avalia o economista Miguel Kiguel, da cosultoria Econviews. "Mas parece que não nos vêem assim lá fora."
Foi essa percepção, segundo Kiguel, que se agravou após o anúncio do governo do plano de nacionalização da previdência privada.

O anúncio da proposta do governo, atualmente em discussão no Congresso argentino, levou a taxa de risco do país a cerca de 2 mil pontos na semana passada - nível de default total, na opinião de Kiguel.

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