A economia mundial vai crescer apenas 1,6% em 2010, segundo previsão divulgada nesta segunda-feira pela Unctad (agência da ONU para o comércio e o desenvolvimento). A estimativa é mais pessimista do que as divulgadas anteriormente por outras organizações internacionais, como a OCDE (2,3% em 2010), o Banco Mundial (2% em 2010) ou o FMI (2,5%).

Para este ano, a previsão da Unctad é de que a economia global sofra uma retração de 2,5%. A maior contração deve ser registrada nos países desenvolvidos, 4,1% - nos Estados Unidos, a queda será de 6,5%.

Entre os emergentes, a América Latina será a região mais afetada, com um crescimento negativo de 2% em 2009. Em relação aos países do grupo conhecido pela sigla BRIC, Índia e China vão registrar crescimento positivo de 5% e 7,8% respectivamente.

Já a economia brasileira deve sofrer uma contração de 0,8%, segundo a Unctad. O pior resultado será registrado na Rússia, com uma retração do PIB de 8% neste ano.

Longe da recuperação

O documento afirma que ainda não é hora de reverter as medidas emergenciais lançadas para estimular a economia mundial.

A agência defende que as políticas excepcionais de incentivo fiscal e expansão monetária adotadas pelos governos de países emergentes e industrializados sejam mantidas - ou até mesmo reforçadas, até a recuperação completa da economia real.

Segundo a Unctad, o mundo está longe de se recuperar da crise atual.

"São muito escassas as probabilidades de que, nos próximos anos, as principais economias se recuperem com a força necessária para que a economia mundial volte a crescer em ritmo semelhante ao registrado antes da crise", afirma o documento.

Em entrevista à BBC Brasil, Detlef Kotte, coordenador do relatório, diz que os sinais de aparente melhora registrados nos últimos meses, entre eles o crescimento do PIB da Alemanha e da França no segundo trimestre deste ano, devem ser vistos com cautela.

Segundo Kotte, os "elementos fundamentais que sustentam a economia" - a demanda interna e os investimentos privados - continuam recuando, impulsionados pelo aumento do desemprego e o recuo da produção.

O recado é que mesmo os emergentes que podem sair melhor e mais rápido da crise, como Brasil, Índia e China, devem manter ou até reforçar a flexibilidade fiscal e uma política de juros baixos como maneira de compensar a queda no consumo interno e o recuo dos investimentos privados.

"Se a demanda interna voltar a crescer de maneira consequente, entre 3% e 4%, aí sim poderemos rever as medidas emergenciais. Por enquanto, não há nenhuma razão para frear essa política expansionista. Não há risco de inflação, e o desemprego vai continuar a crescer. Mesmo com um crescimento de 1% nos países industrializados, o desemprego vai aumentar", afirma Kotte.

Crise global

A Unctad afirma que nenhuma região do mundo e nenhum setor da economia foram poupados pela crise mundial, mas ressalta que alguns países em desenvolvimento, na América Latina e na Ásia,se mostraram menos vulneráveis.

"Esses foram principalmente países que conseguiram evitar déficits importantes na balança de contas corrente ou registrar superávit nos anos que antecederam a crise, como é o caso do Brasil", afirma o documento.

O economista Kotte vê com cautela, entretanto, manifestações de otimismo em relação à economia brasileira.

"Apesar de voltar a crescer no ano que vem, o Brasil vai registrar crescimento negativo neste ano. Outra questão importante é que o Brasil é mais dependente das exportações e tem menos margem de manobra para recorrer ao mercado interno do que países como Índia e China", diz o coordenador do relatório da Unctad.

Para a agência da ONU, uma maior regulamentação e vigilância do sistema financeiro mundial são indispensáveis para impedir que uma nova crise com as mesmas proporções da atual se reproduza.

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