Polícia atira para o ar para dispersar manifestação contra os EUA que toma ruas de Cabul pelo segundo dia seguido e deixa mortos

Milhares de afegãos voltaram às ruas de Cabul nesta quarta-feira, segundo dia consecutivo de protestos contra a queima inadvertida de cópias do Alcorão (livro sagrado dos muçulmanos) e outros materiais islâmicos religiosos durante o descarte de lixo em uma base aérea dos EUA na capital afegã.

Autoridades informaram que os protestos deixaram mortos, mas o número exato de vítimas ainda é incerto. Segundo a agência Associated Press, são sete mortos; de acordo com a rede BBC, seis; e segundo a CNN, cinco.

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Fumaça é vista após caminhão ser incendiado em estrada que liga Cabul e Jalalabad, no Afeganistão (22/02)
AP
Fumaça é vista após caminhão ser incendiado em estrada que liga Cabul e Jalalabad, no Afeganistão (22/02)

Na capital, a polícia atirou para o ar para dispersar a multidão que se aglomerava em frente a um complexo que abriga estrangeiros e a uma base americana nos arredores da cidade. Os manifestantes gritavam “morte à América”, atiravam pedras e queimavam bandeiras. Em uma estrada que liga Cabul e Jalalabad, uma cidade próxima, um caminhão foi incendiado.

Autoridades disseram que a situação está sob controle. “Eles têm o direito de protestar, mas de acordo com a lei”, disse o chefe de polícia Daud Amin. “Também somos muçulmanos e também achamos que (a queima do Alcorão) foi algo errado do ponto de vista islâmico.”

Na terça-feira, o general americano John Allen, o principal comandante no Afeganistão, pediu desculpas e ordenou uma investigação sobre o incidente, que afirmou "não ter sido intencional de forma nenhuma".

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Em uma declaração, o comandante se desculpou ao presidente e à população do Afeganistão e agradeceu aos afegãos "que nos ajudaram a identificar o erro e trabalharam conosco para corrigir a situação imediatamente". Ele também afirmou que o incidente está sendo investigado.

O incidente estimulou o sentimento contra o exterior que já está em crescimento no país depois de uma década de guerra no Afeganistão e alimentou os argumentos dos afegãos que acreditam que os soldados estrangeiros não respeitam sua cultura ou religião islâmica.

Ahmad Zaki Zahed, chefe do conselho provincial, disse que oficiais do Exército americano o levaram para uma área de queima na base onde 60 a 70 livros, incluindo cópias do Alcorão, foram recuperados. Os livros foram usados por detentos que estiveram encarcerados na base, disse. "Alguns estavam completamente queimados, enquanto outros pela metade", relatou Zahed.

Segundo Zahed, cinco afegãos trabalhando no local lhe contaram que os livros religiosos estavam no lixo que dois soldados da coalizão liderada pelos EUA transportaram para a área em um caminhão na noite de segunda-feira. Quando perceberam que os livros estavam no lixo, os operários trabalharam para recuperá-los, contou. "Eles me mostraram como seus dedos ficaram queimados quando tiraram os livros do fogo."

Em abril de 2011, uma manifestação de afegãos contra a queima do Alcorão por um pastor da Flórida se tornou mortal quando atiradores na multidão invadiram um complexo da ONU na cidade de Mazar-e-Sharif, no norte do país, e mataram três membros da organização e quase guardas nepaleses.

Pneus são incendiados durante manifestação contra os Estados Unidos em Cabul, capital do Afeganistão
AP
Pneus são incendiados durante manifestação contra os Estados Unidos em Cabul, capital do Afeganistão

Com AP e BBC

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