Afegãos se refugiam da fome e da guerra no Irã

Javier Martín. Shiraz (Irã), 4 jan (EFE).- Madineh tem apenas 53 anos, o rosto enrugado de uma idosa e lembranças inamovíveis de sua localidade natal, Kunduz, um tradicional reduto talibã próximo à fronteira com o Tadjiquistão.

EFE |

Ela abandonou Kunduz em 1979, aterrada pelas bombas do Exército soviético que a obrigaram a deixar para trás a família, em busca de refúgio seguro no vizinho Irã.

Desde então, quase 4 milhões de afegãos fugiram da guerra e da fome através dessa fronteira, considerada uma das mais perigosas do mundo.

Celeiro de senhores tribais da guerra e principal porta de saída da droga cultivada no Afeganistão, é frequente cenário de tiroteios entre narcotraficantes, contrabandistas de armas, grupos islâmicos jihadistas e forças de segurança iranianas.

"Cruzei a pé com mais pessoas da mesma região, guiadas por homens armados. Ficamos durante vários dias em diversos lugares, até que chegamos aqui", diz Madineh à Agência Efe, no campo de refugiados de Bahar, um subúrbio da cidade iraniana de Shiraz.

Em uma casa de blocos de concreto, ela vive há três décadas com dois filhos e um único desejo: poder voltar algum dia a sua terra natal.

"Meu pai ainda vive lá, quero viajar, mas tudo depende da segurança", afirma, envolta em um xador que mostra um rosto marcado pelas cicatrizes do tempo e suas tatuagens pashtuns.

Segundo estatísticas oficiais, durante as três últimas décadas, o Irã recebeu em seu território a maior população de refugiados do mundo, formada, principalmente, por afegãos e iraquianos foragidos das guerras.

Atualmente, o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) têm recenseados cerca de 1 milhão de expatriados forçados afegãos, mas considera-se que há mais dezenas de milhares não registrados.

Especialistas das Nações Unidas e pesquisadores independentes concordam em elogiar a política de amparada das autoridades iranianas, "chave para evitar mais problemas em uma região já muito instável".

"A República Islâmica tem uma política de asilo muito generosa, já que todos os serviços que dá a seus cidadãos estão também acessíveis para os refugiados", explica à Efe Carlos Zaccagnini, representante do Acnur no Irã.

No entanto, a crise econômica que atinge o Irã ameaça esta paisagem aparentemente idílica.

"Eu tenho três filhas, cada uma das quais paga US$ 60 ao ano para ir à escola", explica à Efe Majid, um homem de 38 anos procedente de Samaga e que trabalha como jardineiro, com um salário aproximado de US$ 120 por mês.

É um dos 300 mil afegãos aos quais o Governo concedeu este ano uma licença de trabalho - e residência -, pela qual paga cerca de US$ 300 anuais.

A citada regularização trabalhista "foi uma conquista considerável, porque, normalmente, em países onde os refugiados se asilam, estes nem sempre têm as possibilidades de trabalhar legalmente", ressalta Zaccagnini.

No entanto, Majid reclama que as condições de vida dos refugiados pioraram consideravelmente nos últimos cinco anos.

Situados na camada mais baixa da sociedade, costumam ocupar os trabalhos mais mal remunerados e aqueles que os iranianos não querem realizar.

Exceto para alguns poucos que prosperaram como comerciantes e pequenos empresários, a crescente inflação diminuiu seu pobre poder aquisitivo.

Responsáveis do Acnur temem que o novo plano do Governo para substituir os subsídios por ajudas diretas à população acabe agravando a situação dos afegãos, obrigados a permanecer, devido ao aumento da violência em seu país.

Desde 2002, e incentivados pela efêmera melhora da segurança no Afeganistão e pelo programa de ajuda para a repatriação do Acnur, cerca de 1,8 milhão de afegãos asilados no Irã voltaram a seu país.

Ao longo de 2009, apenas 3,123 mil decidiram voltar para casa.

O Irã culpa a presença militar internacional pelo forte freio no retorno e argumenta que a política das grandes potências é a raiz da violência naquele país.

Os especialistas advertem sobre o grave problema que poderia gerar na região uma expulsão ou um retorno em massa dos refugiados afegãos no Irã.

"É um problema de todos. Pedimos à comunidade internacional que nos ajudem a preparar o terreno para o retorno dos refugiados", concluem. EFE jm/an

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