Afegãos elegem os membros da nova Assembleia

Eleições foram marcadas por violência, ataques que deixaram mortos e feridos, e denúncias de fraude

iG São Paulo |

Milhões de afegãos foram hoje às urnas para votar nas eleições legislativas, apesar do boicote decretado pelos insurgentes talibãs, que causaram 16 mortes e deixaram dezenas de feridos em ataques contra seções eleitorais de todo o país .

Aproximadamente 92% dos locais de votação foram abertos no Afeganistão, ou seja, mais que os 85% anunciado anteriormente, indicou o chefe da Comissão Eleitoral Independente, Fazil Ahmad Manawi. Dados preliminares mostraram que 3,6 milhões de votos foram contabilizados nas eleições parlamentares neste sábado. Esse número diz respeito a 40% dos votos em todas as zonas eleitorais, mas 1.561 centros de votação dos 6.835 planejados não puderam ser abertos por temores sobre segurança.

AP
Mulheres votam nas eleições legislativas. Dedo é pintado para evitar fraude
"Dizer que a segurança está garantida é um insulto. Foram tomadas precauções, mais do que nunca, mas segue tendo uma grande preocupação", disse pouco antes da abertura dos colégios o chefe da missão da ONU no país (Unama), Staffan de Mistura. Os colégios fecharam as portas na hora fixada, às 16h no horário local (8h30 de Brasília), e a Comissão Eleitoral felicitou a todos por terem conseguido abrir 92% - 5.355 - dos centros previstos inicialmente, apesar do boicote insurgente.

Desde as primeiras horas da manhã, no entanto, os talibãs cometeram ataques com foguetes e bloquearam centros de votação, um total de 150, a maior parte no norte e no leste do país. Ao menos 16 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas nesses ataques, segundo diferentes fontes oficiais e policiais, embora as autoridades afegãs ainda não tenham emitido uma estimativa precisa da violência durante o dia eleitoral.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon, saudou neste sábado "a coragem e a determinação" dos eleitores afegãos que foram aos centros de votação apesar as ameaças dos talibãs. Em um comunicado da ONU enviado a Cabul, seu porta-voz ressaltou que as eleições legislativas foram realizadas, mesmo com "as ameaças significativas contra sua segurança" e condenou "os atos de violência registrados".

O comandante das forças internacionais no Afeganistão, o general americano David Petraeus, também parabenizou os afegãos por terem ido às urnas. "O povo afegão enviou uma mensagem poderosa" para o futuro do país, declarou o general em um comunicado divulgado pela Isaf, a força internacional da Otan. "A voz do futuro do Afeganistão não pertence aos extremistas e às redes terroristas, ela pertence ao povo", acrescentou.

O sábado foi feriado no Afeganistão para permitir que a população votasse e, ao menos em Cabul, os talebãs também promoveram ataques. Como foi feito no ano passado, por ocasião das eleições presidenciais, o presidente Hamid Karzai abriu a votação de manhã em uma escola próxima ao palácio, e realizou um chamado ao voto na língua pashtun. "Esperemos que haja uma alta participação, e que os incidentes de segurança, já que ocorrerão alguns, não dissuadam a ninguém de sair a votar", acrescentou depois em inglês.

Em vista do chamado à violência dos talibãs, as autoridades afegãs ordenaram a presença de 250 mil soldados das forças de segurança, com apoio dos 150 mil soldados internacionais desdobrados no país. As eleições representam uma prova à confiabilidade do regime afegão porque ocorreram apenas um ano depois do pleito presidencial, quando centenas de milhares de cédulas foram canceladas após a comprovação de que eram falsas.

Nos últimos dias cresceram de novo as vozes que denunciam a compra e venda de cartões falsos de eleitores, embora não existam provas contundentes o suficiente. "Esperemos que desta vez não haja fraude. Essa é, afinal de contas, uma das missões da Comissão Eleitoral, que deveria estar pronta para enfrentar essa situação", disse à agência Efe o vice-presidente afegão, Karim Khalili, após depositar seu voto.

O clima geral é de insegurança, a fraude é facilitada pelas dificuldades de comunicação no Afeganistão, a maior parte da população não sabe ler e escrever e está imersa na pobreza. Em comparação à fraude sistemática detectada no ano passado, os analistas acreditam que desta vez o que ocorrerá serão "pequenas incidentes" pontuais a favor de determinados candidatos que controlam as redes de poder.

No total, 270 mil observadores afegãos e estrangeiros vão supervisionar a votação, enquanto a segurança ficará a cargo de 400 mil soldados do país e internacionais.  Estão habilitados a votar mais de 10,5 milhões de eleitores.

Assembleia

A Assembleia afegã reúne um conjunto variado de políticos, que vai de antigos senhores da guerra de resistência contra a União Soviética e seus ex-adversários comunistas, passando por tecnocratas formados no Ocidente e personalidades da sociedade civil.

Apesar de ser considerada uma instituição sem muitos poderes, que apenas registraria as decisões do Executivo, a Assembleia vetou em várias ocasiões nos últimos meses os ministros propostos pelo presidente Karzai.

Mais de 2.500 candidatos disputam as 249 cadeiras da Wolesi Jirga, a câmara baixa do Parlamento, nessas segundas eleições legislativas por voto realizadas desde a queda dos talibãs.

Os resultados não só demorarão a chegar (os preliminares estão previstos para 8 de outubro), mas serão difíceis de interpretar, porque quase todos os candidatos concorrem de forma independente, e em certos casos, bastará pequeno apoio para ser eleito.

*Com EFE, AFP e Reuters

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