Afegãos demonstram indiferença a anúncio de resultados eleitorais de amanhã

Diego A. Agúndez.

EFE |

Cabul, 25 ago (EFE).- A um dia do anúncio dos primeiros resultados parciais das eleições presidenciais afegãs pela Comissão Eleitoral, a população de Cabul segue em suas atividades diárias e se mantém indiferente às acusações de fraude.

"Não votei, nem me interessa o resultado. Outras coisas são mais importantes aqui", disse Navin à Agência Efe, um vendedor do mercado de Mandawi, uma populosa área de compras.

Em Cabul, os primeiros sinais do Ramadã já podem ser percebidos: os funcionários voltam para casa antes do horário habitual e os restaurante ficam vazios durante o dia, mas os mercadinhos continuam cheios de mulheres de burka, homens com turbante e crianças.

Os cartazes da campanha do atual presidente, Hamid Karzai, ainda estão expostos nas ruas de Cabul, junto com os de seu principal rival, Abdullah Abdullah, alheios ao intenso trânsito na capital afegã, em parte pelos cortes de circulação motivados pelos controles de segurança.

"Claro que há fraude. Karzai quer ser reeleito a todo custo. E, além disso, a tinta com a qual votamos era supostamente permanente, mas, na verdade, podia ser apagada", comentou Ramiz, um vendedor de frutas secas, que ainda exibe o dedo manchado desde a votação no dia 20.

Nos últimos dias, 100 denúncias de fraudes foram apresentadas sobre a veracidade do processo. Somente ontem, a Comissão de Queixas Eleitorais divulgou ter recebido 225 denúncias, das quais 35 alegam alterações nos resultados.

Hoje, um dos principais candidatos Ashraf Ghani divulgou uma lista com as 38 denúncias apresentadas por sua equipe de campanha, que incluem o uso de violência e de intimidação, do sufrágio forçado, da compra de votos e do roubo de urnas.

Ghani, que ficaria em quarto lugar de acordo com as pesquisas de intenções de voto, não é o primeiro a denunciar as supostas irregularidades. No domingo, Abdullah assegurou ter provas de uma "fraude maciça" nas eleições.

"Reparem a participação feminina. Não foi nada satisfatória. Além disso, recebemos relatórios de fraude. Em Helmand, por exemplo, houve homens que usaram cartões de mulheres para votar", disse à Efe Lida Yaqubi, da Rede de Mulheres Afegãs (AWN, na sigla em inglês).

A Comissão Eleitoral anunciará amanhã os primeiros resultados parciais da apuração e deve divulgar os índices de participação, que segundo um porta-voz seria de 45% a 50% dos eleitores.

Os analistas esperam níveis de participação particularmente baixos no sul do país, área onde são mais intensas as operações contra os talibãs, que convocaram um boicote às eleições e chegaram ao ponto de cortar os dedos de duas pessoas que não se negaram a votar.

Aproximadamente 50 pessoas, incluindo 21 talibãs, morreram no dia das eleições, em 135 atos violentos. No entanto, os principais países do mundo elogiaram o processo, já que as expectativas, segundo diferentes fontes oficiais, eram ainda piores.

"Estamos esperando e vamos continuar mandando informações.

Esperamos que a Comissão de Queixas atue como deve, porque tem poder legal suficiente", declarou à Efe o porta-voz da Fundação Nacional para Eleições Livres e Justas, Jandar Spinghar.

O próprio líder da comissão de observadores europeus, Philippe Morillon, qualificou as eleições como "justas", mas não "livres", já que, em muitos pontos do país, os talibãs ou os "senhores da guerra" impuseram seu critério sobre os eleitores.

"Este país é assim. As autoridades pedem uma coisa e o povo faz outra. Está claro que haverá fraudes, mas com fraude ou sem, Karzai ganharia", disse à Efe, em Mandawi, o estudante de informática Obaidula Rashi.

Karzai contava com 44% das intenções de voto, segundo a última enquete pré-eleitoral, embora a agência afegã "Pajhwok" tenha assegurado, citando fontes presentes na apuração, que o presidente deve ter obtido cerca de 71% dos votos.

Em entrevista coletiva, a Comissão Eleitoral pediu hoje à imprensa que não publique estimativas de resultados e espere os procedimentos previstos. A expectativa é que o anúncio oficial seja feito amanhã. EFE daa/pd

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