Afegãos completam 30 anos como refugiados no Paquistão

Igor G. Barbero.

EFE |

Islamabad, 9 mai (EFE).- Apesar da resistência das autoridades paquistanesas, mais de 1,7 milhão de afegãos continuam refugiados no Paquistão três décadas depois da invasão soviética ao Afeganistão, diante da difícil perspectiva de retornarem a um país ainda imerso em conflitos e do qual já não têm mais raízes. O Governo paquistanês decidiu ampliar até 2012 o prazo de estadia de afegãos no Paquistão, enquanto o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur, na sigla em inglês) continua com o processo de repatriação, que, desde a queda dos talibãs em 2001, conseguiu o retorno voluntário de 3,6 milhões. "Claro que eu gostaria de voltar algum dia ao Afeganistão, mas não tenho nada e os americanos ainda estão lá", disse à Agência Efe Gül Naveed, natural da província afegã de Kunduz (norte), mas que mora no Paquistão há quase 30 anos. Naveed, que chegou no país quando ainda era criança e fugindo da guerra, vive hoje junto a 600 famílias em uma pobre colônia nos arredores de Islamabad, sem energia elétrica nem acesso a água potável. Mais da metade dos refugiados, predominantemente da etnia pashtuns (73%), se instalaram em acampamentos ou casas alugadas na província paquistanesa de Khyber-Pakhtunkhwa, no noroeste do país, mas 31 mil vivem em comunidades em Islamabad como a de Navees, identificada como I-12. Os moradores contam com precárias habitações, cobertas às vezes com toldos do Acnur, que são ligadas por ruas não asfaltadas, onde as crianças brincam. Lá, o único edifício em boas condições é a mesquita. Os moradores da colônia I-12 ganham dinheiro vendendo frutas e verduras ou trabalhando como pedreiros, recolhendo lixo ou tecendo tapetes. "Se tiver sorte, consigo ganhar umas 200 rúpias por dia (um pouco mais que US$ 2)", conta Sana Gül, enquanto mostra à Efe seu registro, que venceu há meses e que é o único documento que permite ao refugiado sua estadia no Paquistão. Seu caso não é único: mais de 10 pessoas que estavam perto mostraram suas carteiras, todas vencidas, embora alguns tenham uma versão do registro em papel, que serve para evitar as multas impostas frequentemente pela Polícia se não provarem seu status de refugiados. Também é frequente que as forças de segurança, depois de algum dos frequentes atentados terroristas no Paquistão, façam operações nas colônias "afegãs", que geralmente terminam em muitas detenções. "O Acnur e seus parceiros contam com uma rede de advogados para intervir quando são detidos refugiados afegãos registrados. Normalmente conseguimos sua libertação", disse à Efe o porta-voz do organismo Babar Baloch, que admite que as ligações sobre o assunto são diárias. Apesar de os políticos do país terem se acostumado a mencionar os refugiados como prova de seu compromisso com os direitos humanos, eles são, ao mesmo tempo, um fácil "bode expiatório" quando há a necessidade de apontar culpados por algum incidente, o que explica a frequência das ações policiais. No final de abril, o presidente paquistanês, Asif Ali Zardari, apontou nomes de refugiados como culpados pelo assassinato de sua esposa, a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto, enquanto o chefe de Governo, Yousef Raza Guilani, tinha qualificado-os antes como "carga econômica" e "motivo de preocupação" para a segurança. Mas em um gesto melhor esta semana, Guilani assegurou a uma delegação política afegã que o Paquistão está comprometido em ajudar o Afeganistão no desenvolvimento de recursos humanos e infraestruturas. "Mais de 400 mil filhos de refugiados afegãos estudaram em escolas paquistanesas e 28 mil estudantes afegãos se graduaram em universidades paquistanesas", afirmou o primeiro-ministro paquistanês, segundo um comunicado. Dados apresentados à Efe pelo Acnur situam, no entanto, em 30% o número de afegãos que receberam algum tipo de educação, seja informal, primária ou de ensino médio. "Há 3 mil crianças em nossa colônia e não temos escola, portanto, quase nenhuma estuda", se lamenta Naveed, pai de sete filhos. EFE igb/pd

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