Aeroporto parece um campo de refugiados

Repórter do iG conta como tenta embarcar da Inglaterra para o Brasil durante nevasca que atinge países da Europa

Leandro Beguoci, iG São Paulo |

Desde sábado a noite, tentei ligar 20 vezes para a TAP, a companhia portuguesa que deveria levar a mim e a minha família de Londres, onde viemos para a minha formatura do mestrado, para São Paulo. Nosso vôo estava agendado para domingo de manhã, mas ele entrou no conjunto de vôos cancelados pela nevasca que congelou a cidade no sábado, deixando 30 toneladas de neve sobre o aeroporto de Heathrow, um dos maiores do mundo.

De todas as ligações, algumas com 40 minutos de espera, só tive sucesso em uma, hoje, por volta de 10h30 (8h30 no horário de Brasília). Conseguimos entrar numa lista de espera para um voo que deveria partir amanhã, às 6h10 (4h10 pelo horário de Brasília). Por volta das 20h20 daqui, o vôo foi novamente cancelado. A situação é tão ruim que eu até achei melhor. É preferível ficar no hotel a dormir no aeroporto gelado. 

Reuters
Caos aéreo continua no aeroporto Heathrow, na Inglaterra
Sem informações da TAP, fui no domingo e nesta segunda, por volta de 7h, a Heathrow. Afinal, talvez alguém no balcão de check-in ou próximo a ele pudesse me ajudar: a TAP só tem um telefone de contato e o serviço de informações por telefone do aeroporto se resume a informar que meu voo foi cancelado e o mesmo número da TAP que eu já tinha. Chegando ao aeroporto, encontro um campo de refugiados. Algumas pessoas dormiam sobre jornais. Outras estavam abrigadas sobre uma manta térmica, que parece papel alumínio. Falta comida e água. Não é possível tomar banho. Crianças chorando, idosos sentados sobre a bagagem. E eu, que fui atrás de informações, não consigo chegar até elas. No domingo, porque não tinha ninguém no balcão de atendimento da companhia. Hoje, porque os seguranças isolaram o check-in da empresa. Só é possível chegar a ele com vôo confirmado. E, neste momento, estou preso no limbo da falta de informação. Escrevo esse texto enquanto aguardo, novamente, para ser atendido. 

Com esperanças de que a situação estivesse resolvida, depois de falar com a TAP, pela manhã, fomos almoçar na Biblioteca Britânica, onde a comida é boa e estão todos os livros já publicados no Reino Unido (como bom nerd, livros me acalmam). Saimos do hotel, que está próximo à estação de King's Cross/Saint Pancras, de onde partem os trens da Eurostar para Paris. Mais uma vez, o caos. Uma fila partia de dentro da estação, saia pelo seu portão e dava a volta no quarteirão. As pessoas aguardavam do lado de fora, com vento e frio, sem saber se vão conseguir ou não viajar. 

Sempre tive implicância com a expressão “isso só acontece no Brasil”. Ela sempre me pareceu favorável demais aos outros países e aos serviços oferecidos por companhias de outros países (e isso não significa que os serviços oferecidos no Brasil sejam bons, longe disso). Os últimos três dias cristalizaram essa convicção. A BBC informa que o aeroporto de Heathrow tem mais passageiros que os aeroportos de Frankfurt, na Alemanha, e o Charles de Gaulle, de Paris, mas tem menos máquinas para retirar neve, proporcionalmente, do que o aeroporto alemão e o aeroporto francês. De fato, esses dois países sofrem com nevascas tão ruins ou piores que a britânica, mas resolvem seus problemas com mais rapidez. Londres continua adorável e linda sob a neve, mas a administração de seus aeroportos faz lembrar os piores dias do caos aéreos no Brasil (a situação é tão ruim que os seguranças estão impedindo as pessoas de tirar fotos das suas camas de papel). Sobre a TAP, não há muito o que dizer. A companhia me fez relembrar os dias em que eu dependia da empresa de ônibus da minha cidade, Caieiras, para voltar para casa. E isso não é bom.

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