Admitir falha diminui a chance de processo por erro médico

Pesquisa revela: médicos que assumem seus erros diante dos pacientes correm menos risco de ir para a justiça

New York Times |

Quando os médicos erram, dizer “me desculpe” e oferecer compensação pode diminuir as chances de processos por erro médico, mostra uma nova pesquisa.

Em 2001, o Sistema de Saúde da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, introduziu um programa de incentivo aos trabalhadores da área de saúde para relatar erros médicos. O programa incluiu um processo para contar aos pacientes e suas famílias sobre os erros, explicando quem cometeu a falha, como isso aconteceu e quais medidas foram tomadas para evitar algo semelhante no futuro. Fazer um sincero pedido de desculpas ao paciente ou sua família e oferecer compensação pelos danos quando constatada a culpa também estavam inclusos no projeto.

O resultado foi uma redução no número de ações judiciais e pedidos de indenização, resolução mais rápida dos conflitos e diminuição dos custos jurídicos em geral.

Tradicionalmente, os médicos e os gestores de riscos têm receio que admitir a culpa motive processos judiciais, explicou o autor do estudo Allen Kachalia, diretor médico de qualidade e saúde no Hospital Brigham and Women’s, em Boston.

"Muitos acreditam que se admitirmos os erros, os delitos e a má reputação irão se sobrepor às ações realizadas corretamente”, disse Kachalia. “O que nossas descobertas mostram, no entanto, é que isso pode ser feito e, de fato, os custos diminuem e as reclamações são menores”.

Pesquisadores do Sistema de Saúde da Universidade de Michigan e do Hospital Brigham and Women’s analisaram os registros de 1131 reclamações de erro médico ou pedidos de indenização por falha médica, entre 1995 e 2007, o que abrange muitos anos antes e depois de o programa ter sido implementado.

Depois que os médicos começaram a admitir os erros, pedir desculpas e oferecer compensação, a média mensal de novas reclamações caiu de pouco mais de sete por 100 mil pacientes atendidos para 4,52 por 100 mil – ou seja, 36%. A média mensal de processos judiciais movidos contra o hospital também caiu mais da metade: de 2,13 a cada 100 mil pacientes para 0,75.

O tempo médio para resolução desses conflitos diminuiu por vários meses, enquanto os custos médios de processos por imputabilidade, inclusive a indenização devida ao paciente e o pagamento dos advogados, caiu até 60%. E o custo médio de processos que foram arquivados diminuiu de quase 406 mil dólares para 228 mil.

O estudo, financiado pela Fundação Blue Cross Blue Shield de Michigan, foi publicado na edição de agosto do peri[odico Anais de Medicina Interna.

Antes de iniciar o programa, o sistema de saúde atribuiu a causa a um advogado de defesa, de acordo com o estudo. Então, assumiu-se o risco ao se decidir mudar a política. Mas embora pesquisas anteriores sugiram a importância de transparência e desculpas, não há garantias que processos judiciais possam ser evitados, disse Kachalia.

"O programa começou com a crença de que os médicos tinham a obrigação ética de revelar erros e sugeria-se que fazer uma oferta justa de compensação também seria a coisa certa a fazer", disse Kachalia. "Eles realmente não sabiam o que iria acontecer com os custos."

Embora o programa pareça ser bem-sucedido, Kachalia observou que as alegações de negligência médica em geral caíram em todo o estado durante esse período. Os pesquisadores também não puderam precisar se a divulgação dos erros originados pela equipe médica aconteceu em resposta a uma queixa do paciente. Mesmo com essas ressalvas, faz sentido que os pacientes apreciem os profissionais de saúde que se responsabilizam por suas falhas, disse Kachalia.

"Sinceridade, honestidade e transparência são três grandes diretrizes”. "Diversas pesquisas mostram que as pessoas ficam angustiadas quando sentem que falta honestidade. E com isso ficam mais propensas a processos. Nosso estudo não prova que o programa irá reduzir os processos. O que ele mostra é médicos e hospitais podem fazer isso sem falir".

A. Russell Localio, professor adjunto da bioestatística na Universidade da Pensilvânia, chamou os resultados de "promissores".

"A pesquisa sugere que o medo dos processos alerte aos médicos o fato de que podem ser necessários mais exames de diagnóstico", diz Localio, acrescentando que reduzir o medo de ser processado poderia ajudar a reduzir custos com cuidados de saúde em geral.

Um obstáculo, ao contrário do que diz o Sistema de Saúde da Universidade de Michigan, é que grande parte do sistema de saúde é fragmentada. Os erros normalmente não são causados por uma pessoa, eles podem envolver problemas de comunicação entre médicos, cirurgiões, anestesistas, enfermeiros e técnicos.

"Se o sistema é unificado, quando você se aproxima de um paciente, você pode fazê-lo em nome de todos os envolvidos", disse Localio. "Mas se todos trabalham de forma independente e têm seu próprio seguro e seus próprios advogados, isso pode ser muito mais difícil."

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG