Acusações de judeus contra Pio 12 são ultrajantes, diz Vaticano

Por Philip Pullella ROMA (Reuters) - As acusações feitas por judeus de que o papa Pio 12, que comandou a Igreja Católica na época do nazismo, fechou os olhos para o Holocausto são ultrajantes e ninguém pode dizer ao Vaticano se ele deveria ou não ser santificado, afirmou nesta quinta-feira o vice do papa Bento 16.

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Alguns judeus acusam Pio 12, que ocupou o cargo de 1939 a 1958, de haver sido indiferente ao Holocausto. O Vaticano afirma que o pontífice trabalhou nos bastidores e ajudou a salvar muitos judeus da morte certa durante a 2a Guerra Mundial.

"A descrição de Pio 12 como alguém indiferente ao destino das vítimas do nazismo -- os poloneses e, acima de tudo, todos os judeus --, chegando até mesmo a tratá-lo como o 'papa de Hitler', é ultrajante", afirmou o cardeal Tarcisio Bertone, secretário de Estado do Vaticano.

Bertone, conhecido como o "vice do papa" porque ocupa o segundo cargo mais importante da hierarquia da Santa Sé, afirmou em uma conferência que tais acusações "não podem ser suportadas de um ponto de vista histórico".

A polêmica em torno do que Pio 12 fez ou não fez durante a guerra assombra há décadas as relações entre católicos e judeus, e o conflito ganhou novas cores com a discussão sobre se aquele papa deveria ser canonizado.

O Vaticano deu sinais de irritação e agastamento quando alguns católicos conclamaram Bento 16 a acelerar o processo de santificação de Pio 12 e alguns judeus defenderam o congelamento desse procedimento até que a Santa Sé abra, dentro de sete anos, seus arquivos sobre aquele período.

Na semana passada, um líder judeu pediu ao papa que paralisasse a canonização de Pio 12. Bento 16 teria dito estar "considerando seriamente" essa possibilidade.

EM COMPASSO DE ESPERA

Líderes judeus conclamaram o Vaticano a não tornar Pio 12 um santo até que se esclareçam todas as dúvidas sobre seu suposto silêncio. Um desses líderes disse que a canonização abrira uma "ferida difícil de ser cicatrizada".

Bertone, no entanto, foi curto e grosso a respeito de tais apelos. Segundo o secretário de Estado, o processo de canonização era uma "questão religiosa que deve ser respeitada por todo mundo e era algo da alçada exclusiva da Santa Sé".

Discute-se atualmente se Bento 16 deveria fazer avançar o processo de santificação -- que conta com defensores católicos -- por meio da assinatura de um decreto reconhecendo as "virtudes heróicas" dele. O decreto abriria caminho para a beatificação, o último passo antes da canonização.

O papa ainda não assinou o documento -- aprovado no ano passado pelo departamento do Vaticano encarregado desses processos. Bento 16 optou, ao invés disso, por observar um período de reflexão, segundo as palavras do Vaticano.

A Igreja Católica diz que, apesar de não ter criticado o Holocausto, Pio 12 trabalhou nos bastidores para ajudar os judeus porque sua intervenção direta acabaria por agravar a situação ao gerar uma retaliação da parte de Hitler.

Na conferência realizada na Universidade Gregoriana, em Roma, Bertone defendeu Pio 12, afirmando que nos anos de 1939 e 1940 ele deu apoio a um plano britânico-alemão para depor Hitler.

O Vaticano diz que Pio 12 salvou centenas de milhares de judeus ao mandar que igrejas e conventos de toda a Itália escondessem judeus e ao determinar que os diplomatas do Vaticano na Europa concedessem passaportes falsos a judeus.

Bertone tentou justificar, por exemplo, o silêncio de Pio 12 depois de os nazistas, que ocupavam Roma, terem assassinado 335 homens e meninos em retaliação a uma ataque da resistência que matou 33 soldados alemães.

O secretário de Estado disse que os conventos de Roma estavam cheios de refugiados, entre os quais judeus, e que uma condenação pública da parte de Pio 12 em relação ao massacre nazista teria provocado ataques "catastróficos" contra os conventos.

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