Acordo de tarifas tumultua já abalada relação entre EUA e Bolívia

La Paz, 27 nov (EFE).- O presidente Evo Morales atribuiu hoje a decisão dos Estados Unidos de cortar da Bolívia vantagens tarifárias a uma vingança política, embora tenha dito que espera poder renegociá-las com o Governo Barack Obama.

EFE |

Os EUA anunciaram ontem que retirarão a Bolívia, a partir do próximo dia 15 de dezembro, os benefícios tarifários que concede aos países andinos como prêmio pelo esforço na luta contra o narcotráfico, regulados na lei conhecida como (ATPDEA, na sigla em inglês).

Washington justifica sua decisão na falta de cooperação do Governo de La Paz na luta antidrogas, embora tenha advertido que caso "melhorasse seu desempenho", poderia restabelecer essas vantagens, que representam uma tarifa zero para boa parte das exportações bolivianas aos EUA, em sua maioria do setor têxtil.

Em coletiva de imprensa hoje em La Paz, Morales qualificou de "vingança política" a retirada da ATPDEA da Bolívia, dizendo que isso ocorreu porque seu Governo não aceita se submeter à "escravidão" econômica e política de Washington.

Segundo ele, a medida é motivada nas "diferenças de caráter programático, ideológico e cultural com o Governo dos EUA", já que ele não aceita o capitalismo, e sim o "comércio justo".

Morales negou taxativamente que a Bolívia tenha descumprido os objetivos de luta contra o narcotráfico, como sustenta Washington, e assegurou que, com base em números da ONU, seu Governo obteve melhores resultados que Colômbia e Peru tanto na redução de cultivos de coca como nas apreensões de droga.

No entanto, o líder indígena - que se define como antiimperialista - disse hoje que a partir de junho espera renegociar com o Governo Obama os benefícios tarifários.

A decisão dos EUA sobre os benefícios alfandegários acrescenta um ponto a mais de tensão às já deterioradas relações entre La Paz e Washington, marcadas pela expulsão do embaixador da potência americana na Bolívia, acusado por Morales de conspirar contra seu Governo e de apoiar seus opositores.

Fora isso, Morales ordenou há algumas semanas a suspensão das atividades da DEA (agência antidrogas dos EUA) em território boliviano e seu Governo assegurou que a presença de agentes da CIA (agência de inteligência americana) está proibida em seu país.

A agência de cooperação americana USAID também não escapou da "ofensiva antiimperialista" na Bolívia, já que teve que abandonar seus projetos na região de Chapare, reduto de Morales, perante a ameaça de expulsão dos sindicatos cocaleiros.

Por isso, opositores, empresários e analistas vêem na retirada da ATPDEA a "crônica de uma suspensão anunciada" e lamentaram hoje que a ideologia do Governo Morales marque a política externa do país e suas possibilidades comerciais em um mercado insubstituível.

O fim das vantagens para exportar aos EUA pode afetar quase 50 mil empregos diretos e indiretos na Bolívia, associados principalmente ao setor têxtil, mas também aos de indústria dos artigos de couro, joalheria e manufaturas madeireiras.

Óscar Ortiz, presidente do Senado e dirigente da conservadora aliança Poder Democrático e Social (Podemos), criticou hoje que o Executivo de Morales tenha misturado as relações econômicas e comerciais com a ideologia, porque milhares de empregos dependem disso.

"Parece que nosso Governo quer que o país seja um grande acampamento informal, já que o único setor econômico que está apoiando para seu desenvolvimento é o da coca", denunciou Ortiz, que, além disso, alertou sobre o "isolamento internacional" em que a Bolívia está ficando.

O próprio Morales minimizou hoje a importância da hipotética perda do mercado americano para a indústria têxtil boliviana, já que cifrou em mais de US$ 20 milhões as exportações ao país.

O Executivo boliviano também anunciou a habilitação de créditos "brandos" de US$ 8 milhões para que todos os exportadores que se beneficiavam até agora da ATPDEA continuem com regularidade suas exportações. EFE sam/rr

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