Acordo com Irã impõe escolha difícil a EUA

Pacto alcançado por Brasil e Turquia com Teerã causa impasse diplomático nos EUA e dificulta aplicação de nova rodada de sanções

iG São Paulo |

O acordo anunciado nesta segunda-feira pelo Irã pode ser uma solução de curto prazo para o atual impasse com o Ocidente ou provar ser uma tática para minar os esforços para aprovar uma quarta rodada de sanções contra o país por seu controvertido programa atômico.

O acordo, negociado pela Turquia e o Brasil , pede que o Irã envie 1,2 tonelada de urânio pobremente enriquecido para a Turquia, onde seria estocado, dentro de um mês. Em troca, o Irã teria o direito de receber no máximo em um ano 120 quilos de urânio enriquecido a 20% da Rússia e França.

Os termos do pacto se assemelham a um acordo proposto pelo Ocidente no ano passado que ruiu pelo recuo do Irã. Mas ainda não está claro se os EUA concordarão com ele agora - em parte porque o Irã continuou a enriquecer urânio, aumentando seu estoque.

O acordo pode prejudicar as chances do governo Obama de conseguir a aprovação internacional para medidas punitivas contra o Irã. China e Rússia, que se mostraram muito relutantes em impor sanções a um grande parceiro comercial, poderiam usar o anúncio para pôr fim às discussões de medidas adicionais contra o país, que representariam a quarta rodada de sanções. 

AFP
Lula, presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e premiê turco, Tayyip Erdogan, comemoram após anúncio de acordo em Teerã

Washington quer novas sanções porque o Irã se recusou a suspender o enriquecimento de urânio ou a responder as perguntas dos inspetores sobre evidências sugerindo que o país realiza pesquisas sobre possíveis projetos de bombas e experimentos similares. Os inspetores também foram proibidos de visitar vários locais aos quais pediram acesso.

O presidente dos EUA, Barack Obama, enfrenta agora uma escolha difícil. Se rejeitar o acordo, parecerá que não quer um pacto similar ao que buscava há oito meses. Mas, se aceitar, muitas das questões urgentes que disse que teriam de ser resolvidas com o Irã nos próximos meses - a maior parte sobre atividade suspeita de armas - terão de ficar em suspenso por um ano ou mais. Muitas autoridades acreditam que esse é o principal objetivo do Irã.

Acordo de outubro

Em outubro, a 1,2 tonelada que se supunha que o Irã enviaria ao exterior representava dois terços de seu estoque de combustível nuclear - suficiente para assegurar que não mantivesse material nuclear suficiente dentro do país para fabricar uma bomba nuclear. Mas agora a mesma quantidade de combustível representa uma proporção menor de seu estoque declarado.

De acordo com uma diplomata ocidental, que falou sob condição de anonimato, acredita-se que a quantidade de urânio pobremente enriquecido que o Irã estava preparado para enviar à Turquia representa um pouco mais da metade de seu atual estoque. "A situação mudou", disse.

Autoridades disseram à televisão estatal iraniana que o próximo passo seria alcançar os termos para a troca com o chamado Grupo de Viena - EUA, França, Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de inspeção nuclear da ONU. Eles disseram que enviarão um carta formal à AIEA confirmamndo o acordo em uma semana.

O anúncio, que parece ter o objetivo de satisfazer as demandas internacionais, surge enquanto o Irã enfrenta crescente pressões políticas e econômicas.

Apesar de o acordo ter sido considerado um passo positivo por especialistas da região, também há ceticismo se ele é real ou uma tática para transferir a culpa de um conflito para o Ocidente, enquanto atrapalha as perspectivas de o Conselho de Segurança da ONU de impor sanções, o que parecia possível daqui poucas semanas.

“O Irã tem um histórico de chegar a um acordo e depois recuar", disse Emad Gad, especialista em relações internacionais no Centro Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos no Cairo, Egito. “Ele deixa a situação ficar muito tensa e então faz um acordo. Essa é uma característica genuína da natureza da política iraniana."

Coincidindo com a pressão por novas sanções, em 12 de junho o Irã marca o aniversário das contestadas eleições presidenciais do ano passado, que causaram meses de protestos e conflitos. O Irã também enfrenta sérias pressões econômicas de inflação, perda de investimento estrangeiros e a perspectiva de levantar os subsídios das commodities, o que significaria preços mais altos e, talvez, novas tensões sociais.

“Com acordos como esse é necessário ser um pouco cético, pelo menos inicialmente, porque muitos no passado provaram ser uma oportunidade virtual em vez de algo mais substancial", disse Michael Axworthy, ex-diplomata britânico e especialista em Irã da Universidade de Exeter.

Há motivos para ficar cético. Em Teerã, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores disse que o Irã não suspenderá, por exemplo, seu programa de enriquecimento de urânio a 20% - o que o aproxima do nível suficiente para uma bomba.

O Irã diz que seu programa é pacífico, enquanto o Ocidente diz que o objetivo do país é construir uma bomba. Essas acusações foram ampliadas pelo fato de o Irã ter aprimorado e testado sua capacidade de mísseis de longo alcance.

*Com New York Times

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