Acidente nuclear no Japão leva países a rever programas

Alemanha e Suíça suspenderam projetos temporariamente, enquanto Índia prometeu revisão; planos do Brasil não foram alterados

iG São Paulo |

O acidente nuclear no Japão levou autoridades de países com programas nucleares a rever projetos e priorirades. Nesta segunda-feira, Alemanha e Suíça foram os primeiros países europeus a suspender temporariamente projetos nucleares como medida preventiva, após as explosões registradas em uma central japonesa, o que abriu nesta segunda-feira um debate no continente sobre a necessidade de se reforçar a segurança.

A chanceler alemã Angela Merkel anunciou uma moratória de três meses na decisão já adotada por seu governo de prolongar a vida das centrais nucleares do país. O que acontece no Japão, onde as autoridades tentam por todos os meios evitar uma catástrofe nuclear na central de Fukushima, segundo Merkel, "muda a situação e na Alemanha, também". "Não podemos fazer como se nada tivesse acontecido. Digo isso muito claramente: não há tabu algum no que diz respeito à análise das condições de segurança", insistiu a chanceler.

Berlim tomou assim uma decisão destinada a tranquilizar seus cidadãos e se somou à Suíça, país que não faz parte da União Europeia (UE), que suspendeu seus projetos de reforma das centrais, à espera de "normas de segurança mais estritas".

As repetidas explosões e as falhas de vários reatores da central nuclear de Fukushima 1 do Japão, prejudicada pelo sismo e posterior tsunami que assolou o país na sexta-feira, alimentou o temor de um desastre atômico na Europa, onde existem cerca de 150 reatores.

Com o propósito de "obter informações em primeira mão sobre planos de urgência e sobre as medidas de segurança" atuais na Europa, a Comissão Europeia convocou para terça-feira uma reunião de urgência em Bruxelas. Os ministros europeus da Energia e do Meio Ambiente, assim como as autoridades nacionais de segurança nuclear e dirigentes das grandes companhias do setor, participarão dessa reunião.

"O que acontece no Japão é claramente um acidente nuclear muito grave e o risco de uma grande catástrofe não pode ser descartado", admitiu a ministra francesa do Meio Ambiente, Nathalie Kosciusko-Morizet, cujo país cobre 75% de suas necessidades energéticas com suas centrais, em uma reunião em Bruxelas. "Queremos o nível de segurança o mais elevado possível e determinar se a energia nuclear é ou não controlável", ressaltou a ministra, que considerou também que não é o momento de se precipitar.

Sem minimizar a "importância do debate sobre a segurança", Elena Salgado, vice-presidente do governo espanhol, pediu que seja mantida uma "perspectiva global" e lembrou que as centrais no Japão, "até o momento, estão resistindo graças às medidas de proteção".

Advertência

A Áustria, que se opõe à energia nuclear, lançou uma advertência ao restante dos europeus: "Queremos segurança máxima para a nossa população e todos os nossos vizinhos devem poder garantir a das suas", declarou o ministro do Meio Ambiente, Nikolaus Berlakovitch. "Queremos controles de resistência em todas as centrais nucleares da Europa e que sejam feitos rapidamente", afirmou o austríaco.

Para a ministra do Meio Ambiente italiana, Stefania Prestigiacomo, "a catástrofe no Japão suscita muitas preocupações". "Desejamos entrar no sistema nuclear da UE, mas esperamos informações sobre a situação das centrais," indicou Prestigiacomo, cujo país abandonou este tipo de energia em 1987. No bloco europeu, a maioria dos países tem centrais nucleares, principalmente a França (19 centras e 58 reatores), a Grã-Bretanha (9 e 19), a Alemanha (12 e 17), a Suécia (7 e 16) e a Espanha (6 e 9).

Diante do acidente do Japão, o governo da Índia determinou a revisão dos sistemas de segurança de todas as usinas nucleares do país para a comprovação de que podem resistir a catástrofes naturais. "Determinamos uma revisão técnica imediata de todos os sistemas de segurança de nossas usinas nucleares, com o objetivo de garantir que possam resistir o impacto de grandes desastres, como tsunamis e terremotos", disse o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh.

Um dos novos projetos atômicos da Índia está na zona de Jaitapur, na região ocidental de Maharashtra, em uma área de atividade sísmica. No país, há ao todo 20 reatores nucleares, com capacidade de 4.780 megawatts, mas 18 deles têm sistemas de fabricação local e apenas dois possuem tecnologia similar à da usina de Fukushima, informa a agência indiana "Ians".

Nos EUA, o jornal americano The New York Times publicou uma matéria em que dizia que o acidente nuclear no Japão coloca em xeque o apoio a esse tipo de programa de energia no país.

O primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, afirmou que os especialistas têm certeza que os problemas das usinas nucleares no Japão causadas pelo terremoto não constituem uma "ameaça global" nem representam perigo para o território russo. "Nossos analistas têm certeza de que não há nenhuma ameaça para o território russo", disse Putin, citado pela agência Interfax, em entrevista coletiva na cidade siberiana de Tomsk.

Brasil

O Brasil se disse preparado para enfrentar acidentes nucleares e não deverá retroceder nos planos de aumentar o seu parque nuclear por causa do acidente no Japão, de acordo com o assessor especial da presidência da Eletronuclear, braço da Eletrobras, Leonam Guimarães. "Esse problema sem dúvida vai causar perturbação em todos os planos (de novas usinas). Mas o que aconteceu no Japão não muda os cenários individuais de cada país que levam à necessidade da geração elétrica nuclear", afirmou Guimarães à agência Reuters.

Para o representante da Eletronuclear, decisões como a da Suíça, que anunciou ter suspendido a aprovação de novas usinas nucleares, "são puramente emocionais" e um país que necessita de energia não poderá agir dessa forma. "O fato de ter ocorrido esse acidente não muda em nada as necessidades e os critérios que levaram vários países do mundo a recorrer à energia nuclear."

O Brasil pretende decidir este ano o local para a construção de quatro novas usinas nucleares de 1 mil megawatts cada, que devem estar prontas até 2030. O país finaliza também a usina Angra 3, a terceira usina nuclear brasileira, com capacidade para gerar cerca de 1,3 mil MW.

Além do Brasil, Argentina e México, os outros países da América Latina que operam usinas uncleares na região, descartaram o risco de catástrofe nuclear.

Na Argentina, o gerente de Controle de reatores da Autoridade Regulatória Nuclear, Rubén Navarro, disse à AFP que as usinas de Atucha e Embalse têm "diferenças fundamentais" em relação às do Japão. Distantes do mar e da zona de junção de placas tectônicas, elas não correm o risco de serem afetadas por terremotos ou tsunamis, e possuem um desenho diferente dos modelos construídos no Japão. "As usinas argentinas têm um circuito de refrigeração entre o núcleo e o setor externo. As japonesas não têm", disse Navarro, para quem a situação no Japão não deverá motivar medidas extraordinárias nas usinas argentinas.

Já Epifanio Ruiz, especialista em Ciências Nucleares da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), lembrou que não há falhas geológicas nas proximidades de Laguna Verde, o que torna improvável a ocorrência de um maremoto. “No caso de furacões, os reatores são desligados gradualmente", explicou Ruiz.

As usinas de Laguna Verde são alvos de críticas por terem sido instaladas em uma região exposta à ação de furacões. No ano passado, o furacão Karl tocou a terra a apenas sete quilômetros das usinas e causou a desativação dos reatores.

A crise nuclear no Japão não deve se tornar em outro Chernobyl, o pior acidente nuclear da história, disse o chefe da agência nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU). É "improvável que o incidente se desenvolva" como ocorreu em Chernobil, disse Yukiya Amano, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Ele apontou para algumas diferenças, entre elas o projeto e a estrutura das usinas nucleares.

Devastação

Uma gigantesca operação foi posta em marcha para resgatar os mortos e desaparecidos no desastre natural. A repórter da BBC Rachel Harvey, que está na cidade portuária de Minami Sanriku, disse que as águas avançaram cerca de 2 km terra adentro, devastando a paisagem com destroços.

A repórter disse que o cenário é de extrema devastação e é improvável que haja muitos sobreviventes. Até agora foram confirmados 1.833 mortos, mas o número final deve ser muito maior. A agência de notícia Kyodo News afirmou que foram encontrados cerca de 2 mil corpos na região administrativa de Miyagi nesta segunda-feira, mas os números não foram confirmados oficialmente.

Em Sendai, capital de Miyagi, a 300 km de Tóquio, as equipes de resgate também estão encontrando cenas de devastação. Réplicas do terremoto de sexta-feira estão sendo registradas na capital japonesa.

Crise

Mais cedo, o primeiro-ministro japonês, Naoto Kan, anunciou que o país passará a enfrentar cortes no fornecimento de energia. Depois, o governo decidiu adiar os cortes até ficar claro qual será a economia de energia nas residências.

As autoridades estão aconselhando os cidadãos a não ir para o trabalho nem levar seus filhos à escola, para evitar sobrecarregar a debilitada capacidade do sistema de transporte público. O premiê disse que o desastre mergulha o país "na crise mais grave desde a Segunda Guerra Mundial".

Estimativas preliminares elevam os custos de recuperação da tragédia em dezenas de bilhões de dólares - um forte golpe para o país, em um momento em que a economia mundial dá sinais de retomada. O governo afirmou que injetará 15 trilhões de ienes na economia japonesa (mais de US$ 180 bilhões) para dar um sinal positivo para o mercado financeiro, que abriu em queda nesta segunda-feira.

*Com AFP, Reuters e EFE

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