Acidente de trem provoca debate sobre segurança dos transportes na Argentina

Especialistas e sindicalistas afirmam que baixo investimento pode estar por trás de tragédia que deixou 50 mortos e feriu centenas

iG São Paulo |

O acidente de trem que deixou 50 mortos e quase 700 feridos em Buenos Aires na quarta-feira provocou um debate sobre a segurança dos transportes públicos da Argentina. Especialistas e sindicalistas ferroviários disseram que os baixos investimentos podem estar por trás da tragédia com o trem da empresa TBA (Trens de Buenos Aires).

Em alta velocidade, o trem bateu na plataforma da movimentada estação do bairro de Onze, em Buenos Aires. Trata-se do acidente mais grave do país desde os anos 1970 e o terceiro pior da história da Argentina.

Relato: 'Sentimos que vagão subia no outro', diz ferido em acidente

Reuters
Equipes de resgate retiram passageiros de trem que colidiu com plataforma em Buenos Aires (22/02)

Segundo sindicalistas ferroviários, a estrutura da rede de trens do país é tão ultrapassada que a sinalização, em muitos casos, é da década de 1920. Passageiros reclamam de superlotação e atrasos constantes na rede, que é operada por empresas privadas, mas recebe pesados subsídios do governo.

O engenheiro argentino Andrés Fingeret, diretor do Instituto de Políticas para o Transporte e o Desenvolvimento (ITDP), disse à BBC Brasil que os países da América Latina deixaram o transporte público em segundo plano, dando prioridade aos carros e à infraestrutura ligada a eles, como estradas, sem dar a mesma atenção aos trens, por exemplo. Para ele, a "cultura do carro faz com que as autoridades e os investimentos estejam no lugar errado".

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O acidente aconteceu no momento em que é discutida a redução ou eliminação dos subsídios do governo federal aos transportes públicos e outros setores da economia.

Um estudo realizado pelos especialistas em infraestrutura Lucio Castro e Paula Szenkman, do Centro de Implementação de Políticas Públicas para Equidade e Crescimento Econômico (CIPPEC), de Buenos Aires, indicou que as empresas de transporte público são hoje dependentes destes recursos do Estado. Porém, mesmo com este dinheiro, não houve melhoria nos serviços.

"A partir de 2003 (quando surgiram os subsídios), aumentou a quantidade de passageiros e caiu a oferta de assentos no sistema de transporte público. Desde então, dentro do sistema de transporte público, o setor que menos investimentos recebeu foi o ferroviário e o que mais recebeu foi o das estradas", afirmou Castro.

Manutenção e renovação

Num comunicado, a Central de Trabalhadores Argentinos (CTA) disse que o acidente não ocorreu "por acaso", mas por "falta de controle e de investimentos".

O ex-diretor nacional de Transporte Ferroviário da Argentina Juan Alberto Roccatagliata diz que a situação da rede na zona metropolitana de Buenos Aires ainda é melhor que em outras regiões do país.

"A rede ferroviária em nível nacional é muito antiga e necessita de uma renovação quase total, enquanto na região metropolitana a situação é melhor. Houve renovações, ainda que não tenham sido suficientes", disse ele.

"Essas são coisas que acontecem até no primeiro mundo, mas certamente há um déficit de planejamento e execução, porque se são tomadas as precauções necessárias se reduz a probabilidade de haver esses acidentes."

Pablo Martorelli, presidente do Instituto Nacional Ferroviário da Argentina, disse que “não é preciso exagerar”. “O trem continua sendo um meio de transporte seguro, no qual, às vezes, acontecem acidentes", afirmou. Ainda assim, ele reconheceu que algumas linhas têm uma manutenção "pobre e deficiente".

Causas do acidente

Logo após a tragédia, sobreviventes contaram, diante das câmeras de televisão, que o trem estava lotado, tinha algumas portas abertas, e não teria conseguido frear ao chegar à plataforma, na estação final do percurso.

O secretário de Transportes, Juan Pablo Schiavi, disse que as causas do acidente ainda são "uma incógnita". "O maquinista tem 28 anos e tinha assumido o controle da viagem apenas algumas estações antes. O trem passou por uma revisão na véspera e estaria em boas condições. Vamos esperar a investigação da justiça", disse.

Segundo Schiavi, "um trem no horário mais cheio transporta cerca de 2,5 mil passageiros. Neste caso (no momento do acidente), havia algo entre 1,2 e 1,5 mil passageiros".

De acordo com dados oficiais, a linha Sarmiento, onde ocorreu o acidente, transporta cerca de 300 mil passageiros diariamente. No horário de maior movimento, há um trem a cada oito minutos.

A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, lamentou o acidente e, em nota, expressou seu “profundo pesar pela morte de cidadãos na tragédia ferroviária”. Na quarta-feira, o governo argentino decretou dois dias de luto oficial.

Outros acidentes

O último grave acidente de trem no país aconteceu apenas três meses atrás, quando seis meninas e dois professores de uma escola católica morreram depois que o ônibus em que viajavam para um retiro espiritual foi atingido por um trem de carga, na cidade de Zanjitas.

Pouco antes, em setembro, outro acidente envolvendo um ônibus e dois trens deixou 11 mortos e mais de 200 feridos.De acordo com a imprensa argentina, só no ano de 2011, cinco acidentes envolvendo trens deixou 23 mortos e cerca de 300 feridos no país.

A maior tragédia ferroviária da história argentina aconteceu em 1970, quando uma batida entre dois trens causou a morte de 236 pessoas, no norte de Buenos Aires.

O segundo acidente mais grave ocorreu em 1978. Um caminhão colidiu com uma vagão de trem, deixando 55 vítimas fatais.

Com BBC e Ansa

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