Achados e perdidos: o tempo

Num mundo ameaçado por um repeteco de guerra-fria, nada como empreitadas inúteis para reconfortar e dar sentido à vida. Ao menos, entre mortos e feridos, salvam-se todos, para cunhar uma frase.

BBC Brasil |

Vejamos o caso de Véronique Aubouy, de quem só conheço - e já começo a me esquecer - de nome. Véronique é uma mulher com um projeto. Saiam da frente, quando derem com uma mulher com um projeto. Elas botam pra quebrar. Pior: dão para construir. Como se dá errado neste mundo de volta aos anos 50, Ó Senhor!
O projeto de Véronique, francesa, como o nome indica, tem nome, tal como ela: Le Baiser de la Matrice. Nada a ver com Keanu Reeves e efeitos especiais. É muito mais complicado. Citação proustiana. Qualquer coisa com o dandy gaulês prima por exagerar nos caprichos.

Não é que Véronique propôs-se a filmar toda a obra-prima de nosso bom Marcel Proust. Coisa que cineastas como François Truffaut, Alain Resnais, Jacques Rivette, Joseph Losey e até mesmo o benzérrimo Visconti perderam não mais que algumas horas contemplando a possibilidade de uma adaptação para logo depois seguirem em frente com outros esquemas.

Ao pé da letra
Véronique está filmando e vai continuar filmando Marcel Proust palavra por palavra. Repito: palavra por palavra. Imagem? De jeito nenhum, absolutamente. O que ela quer e vem fazendo desde 1993 é transformar o épico publicado em sete volumes (dependendo da edição), À la Recherche du Temps Perdu (Em Busca do Tempo Perdido), num único "vozerio" (de voz + rio, cunhagem minha à maneira de Guimarães Rosa) infindável.

Ou melhor, findável. Um dia. Só que, até agora, Véronique, nestes 15 anos, filmou apenas 742 pessoas lendo uma página, e nada mais do que uma página, do roman-fleuve tido como genial por 27 entre 40 academistas brasileiros de letras. (Os outros 13 não têm a menor idéia do que quer dizer roman-fleuve.)
Isso corresponde a três e não mais que três dos sete volumes da edição com que a cineasta (na França) trabalha. O elenco deverá ser de 3.000 intérpretes oriundos de 246 países do mundo. Há 18 brasileiros entre eles, o que não surpreende, uma vez que é cada vez maior o número de brasileiros à solta por este mundo que já foi de Deus. Muitos deles, inclusive, sabendo ler, escrever e multiplicar e se multiplicar, pois estas são as leis que regem os benefícios sociais e a leitura, com sotaque charmant, de Proust.

Sai um, entra outro
No La Matrice é tudo gente desconhecida lendo o mestre francês e depois sumindo para sempre num fade-out curto e seco como Graciliano Ramos, para dar uma chegada ao outro extremo do espectro literário. Mundial, claro.

Cada desconhecido cede lugar a outro desconhecido. Feito num imenso ônibus repleto de gente educadíssima. Paneleiros, xenófobos, xifópagos, deputados, senadores, faxineiros, mulheres-a-dias, socialites, barregãs, farmacêuticos, bêbados, tudo e todos que você pensar estão entre os 742 já devidamente registrados. Vem mais aí, muito mais.

A original cine-autora tem, cativas nas bobinas, 72 horas de falação. Falação a seco, sem rebuscamentos, atonal, no melhor estilo João Gilbertiano.

Faltam 4 volumes e pelo menos 2058 pessoas, já que assim calculou, e fê-lo muito bem, Véronique, uma vez que são 3000 páginas perfazendo 3000 voluntários, que nada ganharão, sequer a fama, talvez nem mesmo a honra de uma sessão especial em cabina ou cinema com decoração art nouveau.

Pronto o filme-romance-falado de Véronique, calculou-se (Véronique calculou) em 170 horas seu tempo de projeção. Não há ainda planos para seu lançamento em DVD.

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