Abertas sufocadas

Para quem viveu tantos anos da televisão, confesso que, hoje, tevê aberta só à forca, em ocasiões especiais ou em companhia de jornais, revistas e livros. A cadeira e o abajur da leitura ficam na mesma sala da tevê, com som baixinho.

BBC Brasil |

Se o programa é bom, ganha da leitura. Quase nunca acontece.

Nesta semana, por exemplo, o 24
Horas
, da Fox, com o superagente Jack Bauer, era um especial de duas horas. No episódio, um grupo de terroristas africanos desce de um iate no rio Potomac, entra num esgoto em Washington, vai até debaixo da Casa Branca, onde fura um túnel, e sequestra a presidente (no ano passado, quando foi escrito e gravado, os produtores achavam que a Hillary ia ganhar a eleição), a filha dela e vários assessores, inclusive o superagente. Não dá pé... Basta ler o resumo de cinco linhas e voltar para a leitura.

Nesta crise, as tevês abertas americanas estão em supercrise e a falta de qualidade não é saudosismo meu: perderam dinheiro, audiência e mergulharam nos reality shows. Nos últimos três meses de 2008, as tevês abertas perderam 3 milhões de espectadores, 7% da audiência total. A rede CBS tem 12 dos 20 shows de maior audiência e, no último trimestre, o faturamento caiu 40%.

Esta decadência é velha, mas não estava tão acelerada. Começou na década de 80, quando surgiram a CNN e as tevês por assinatura. Naquela época, as redes tinham mais de 90% da audiência e o último episodio de MASH
teve uma audiência acima de 100 milhões.

Nas décadas de 70, 80 e começo dos 90, as redes americanas tinham comédias e dramas excepcionais, não havia Tivo nem caixas gravadoras, hulus, DVDs e as casas não tinham varias televisões. Eu não marcava compromisso nas noites de Cheers
, MASH
, All in the Family
, Seinfeld
e, o mais imperdível, Bob Newhart
, que neste junho vai fazer 80 anos, 50 no show business, a maioria na televisão.

Antes de comediante, ele foi contador e depois burocrata numa agência que pagava salários para desempregados. Um dia, descobriu que fazendo cheques de 45 dólares para desempregados ele ganhava 55. Entre trabalhar cinco dias por 55 e nenhum por 45, ele entrou no roll dos desempregados.

Bob é o mais econômico dos comediantes, o campeão do humor de uma frase, às vezes nenhuma. Num dos shows dele na televisão, fazia o papel do dono de uma pousada em Vermont, onde trabalhavam três irmãos que não eram muito espertos: "este é meu irmão Darryl e este é meu outro irmão Darryl". Neste caso, Newhart não precisava gastar nenhuma palavra.

A carreira dele deslanchou com um disco em que contava piadas - The Button-Down Mind of Bob Newhart
. Na semana do lançamento, derrubou Elvis Presley e o long play The Sound of Music
e conquistou o primeiro lugar em vendas.

Newhart faz piadas com a fama e os mitos do show business: há, por exemplo, o ditado que, na ascensão para o sucesso , você deve ser educado e generoso com as pessoas que encontra porque, no caminho inverso, vai encontrar estas mesmas pessoas. "Grande mentira", diz ele! As pessoas que você encontra rumo à decadência e ao esquecimento são outras, igualmente miseráveis e sem poder.

Já era famoso na televisão, mas - como acontece até com jornalistas - costumava ser confundido com Paul Newman, não pela aparência, mas pelo sobrenome. Ele contava em casa sobre a confusão, a mulher não acreditava. Uma tarde, estavam na Disneylândia, quando foi abordado por um jovem como se fosse Paul Newman. A mulher dele estava no banheiro e Bob disse ao fã para ficar por perto e fazer novo pedido quando chegasse uma ruiva ao lado dele. Ela continuou duvidando da semelhança do marido com Paul Newman, mas parou de duvidar das histórias dele.

Há muitas exceções, mas fama de televisão é ilusória e passageira. Mesmo no tempo que trabalhava nos telejornais da Globo, era sempre confundido. Numa fila de banco, uma mulher atrás de mim cochichou para a amiga:
"Esse aí na nossa frente é o Silio Boccanera."
"Deixe de ser burra, menina, este é o Hélio Costa."
Eu me apresentei: "muito prazer, Lucas Silva Pinto".

"Ah! É isto mesmo. Vai desculpar."
O nosso ministro das Comunicações, Hélio Costa, quando era repórter não gostava de ser confundido e chegou a ir embora de restaurantes se sentindo rebaixado.

Hoje, o ministro manda e desmanda nas televisões brasileiras e algumas delas, pelos números, vão melhor do que as americanas. Ainda somos emergentes. Um dia, chegaremos aos números da supercrise.

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