A voz do surdo

Em 69, aos 61 anos, I.F.

BBC Brasil |

Stone estava no auge da carreira e a guerra do Vietnã se aproximava do apogeu da violência.

Sem ela, talvez ele não fosse hoje reconhecido como um dos maiores - se não o maior - repórteres investigativos americanos da geração dele. Já era surdo na década de 60, a cegueira avançava, mas Stone era o campeão da esquerda, do Paulo Francis e do Hugo Estenssoro. Ambos, mais tarde, abraçaram a direita. Hugo Estenssoro, um dos mais cultos e lidos jornalistas do nosso tempo, tem múltiplas identidades. Boliviano de nascimento, mexicano, brasileiro, inglês e americano. Companheiro de bolsa em 68 e 69, foi quem me apresentou I.F. Stone e sua newsletter, que tinha começado em 53 com uma circulação de 500 mil assinantes herdados de uma revista falida, e estava, na época, 69, com 70 mil assinantes, seu recorde. Radical desde jovem, judeu, discriminado na infância e na faculdade, mudou o nome de Feinstein para Stone, segundo ele para proteger os filhos, mas foi um dos seus editores, David Stern, quem sugeriu a mudança porque Stone escrevia colunas agressivas contra os tribunais americanos que bloqueavam as reformas de Roosevelt. O sobrenome judeu não ajudava a causa. Feinstein aceitou, mas nunca se ajustou bem à mudança e se chamava de "Izzy", um apelido bem judeu. Durante a grande depressão perdeu a fé no capitalismo, foi seduzido pelo comunismo soviético, mas desconfiava dos métodos de Stalin. Outro livro recente, de dois historiadores americanos e um jornalista russo, afirma que Stone foi informante da KGB de 36 a 38. Ele foi um sionista e defensor apaixonado de causas israelenses. Em 48, desembarcou com outros judeus ilegais na Palestina, onde, escreveu, "um judeu pode ser judeu". Depois da guerra de 67, escreveu na New York Review of Books: "é uma guerra do certo contra o certo. Uma guerra trágica. Os vitoriosos se tornam culpados e precisam compensar os derrotados". Mais tarde, Stone se tornou defensor dos palestinos e crítico implacável dos governos israelenses. Stone era apaixonado por Nova York, onde teve uma carreira de repórter, editor e colunista estrela em jornais liberais e esquerdistas durante 25 anos, mas, aos 44, no inverno de 52, estava no seu escritório, sozinho, desolado, desempregado: "me sinto um fantasma", escreveu. "I.F. Stone não desapareceu" conta seu biógrafo D.D. Gutemplan, correspondente da revista The Nation, em Londres, que passou 20 anos trabalhando na recém-lançada biografia (a quarta) do jornalista - an American Radical - the Life and Times of I.F. Stone (Farrar, Straus & Giroux) - na qual desmente as acusações de Stone com a KGB. Apesar da paixão por Nova York, o colunista desempregado fez as malas, partiu com a família para Washington e, em 53, lançou, quase sem capital, a newsletter I.F. Stone Weekly que duraria mais do que qualquer outra publicação jornalística individual no país desde o almanaque de Benjamin Franklin. Nesta época ele já estava na lista negra por causa do livro The Hidden Story of the Korean War, publicado em 52, questionando versões oficiais sobre a guerra das Coreias. Repetiu a dose investigativa na guerra do Vietnã e denunciou a fabricação do ataque do golfo de Tonkin pelo governo americano, que Johnson usou com pretexto para invadir o país. I.F. Stone trabalhou quase toda vida na alça de mira do FBI. Seu passaporte foi confiscado pelo Departamento de Estado. Nos ataques ao macartismo, racismo e outras forças de direita, ele não podia errar nem usar fontes anônimas. Pouca gente tinha coragem de falar com ele. Surdo, Stone não frequentava entrevistas coletivas nem os briefings oficiais. Passava horas lendo transcrições do Congressional Record, de debates do Congresso e de obscuras comissões. Todas mentiras oficiais estavam lá. Em 71, quando sua newsletter deu lucro pela primeira vez, I.F. Stone teve um problema cardíaco e suspendeu a publicação, mas, de novo, transformou uma fraqueza numa força. Voltou para a faculdade que não tinha terminado, aprendeu grego antigo e escreveu o livro O Julgamento de Sócrates.

Aos 80 anos, aprendeu a usar um computador Mac porque, meio cego, podia ler letras gigantes. Em estilo investigativo, escreveu como Sócrates quis ser condenado à morte pela democracia de Atenas que considerava desprezível. Stone morreu em 89, de infarto. Apesar da reputação de radical, dos anos marginalizados e da pequena circulação, numa pesquisa entre jornalistas americanos, I.F. Weekly aparece em 16 lugar na lista dos trabalhos jornalísticos mais importantes do século 20. Quem costuma ler esta coluna encontra erros tipográficos. Eu erro muito e, às vezes, engano meu revisor. Para I.F. Stone, isto era imperdoável e dizia à filha, revisora: "erro tipográfico é pior do que facismo". Eu não escaparia num tribunal dele. Super P.S.: Antes de escrever a coluna mandei um e-mail para o Hugo Estenssoro sobre as conexões dele com o I. F. Stone. A resposta chegou depois da coluna pronta. Merece ser publicada na íntegra, com os espanholismos: "Escrevi sobre o 'Izzy' Stone, de fato, e mais de uma vez; a primeira, quem diria, para a Manchete. Tenho ótimos retratos dele. Infelizmente, meus textos pré-computador devem estar nas profundezas de algum caixote no depósito. Depois de entrevistá-lo um par de vezes terminamos ficando amigos e visitando-nos mutuamente em nossas viagens a NY e DC. Facilitei alguns livros para seu livro sobre Sócrates. Quando fui para Londres perdi o contato. Não li a biografia, mas parece que o autor é fã incondicional, o que não é boa idéia agora que surgiram provas de que Stone era considerado pela KGB como homem de confiança na década de 30. Quando o conheci, ele tinha virado fortemente antistalinista. Ele teve forte influência em mim, não ideológica, mas profissional: ensinou-me a ler tudo, releases, documentos, arquivos, textos de leis, debates do Congresso, etc. Procurando você encontra tudo. A nossa profissão não apenas é preguiçosa, mas também frívola; ele deu-me um exemplo de trabalho. Claro que isso não garante bons resultados. Ele errou nos principais temas de seu tempo, a guerra de Coreia e a do Vietnã. No final, quase o convenci de que o nacionalismo vietnamita era uma empulhação para esconder o stalinismo. Quanto à sua pergunta sobre a minha posição: continua igualzinha, não era de esquerda quando apoiava a esquerda, nem sou de direita por agora apoiar a direita. Sou é contra os poderes, que, ou são ruins para começar, ou se corrompem. Na nossa juventude o poder - o establishment - era de direita, e a maneira de combatê-lo era posicionar-se com a esquerda; hoje temos uma hegemonia da esquerda (até a Time de Henry Luce é de esquerda...) e a posição honesta é junto à direita. Prova de que isso é correto é que a fina flor do pensamento, jornalismo, etc, está agora nesse campo, como antigamente estava na esquerda. Quase não há nada para ler na New York Review of Books ou no New Yorker; a civilização está no New Criterion ou na Commentary."

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