A voz da Carolina

Antes de ser do Norte, ela era apenas Carolina e, antes, era Joara, uma aldeia indígena. Nenhum Estado a leste do rio Mississipi tem tantos índios (6,5% da população).

BBC Brasil |

O governo reconhece oito nações, entre elas, a dos Cherokees, que nos deu Jimi Hendrix.

E mais: Johnny Depp, Liv Tyler, a belíssima Catherine Zeta-Jones, nascida na Grã-Bretanha, e dezenas de outros atores que não fazem papéis de índios. Não fiz a pesquisa, mas pode apostar que esta tribo de Hollywood quer o cacique Obama na Casa Branca.

O Cherokee Sequoia Hunt tem o nome do grande chefe da tribo, mas não descende do líder. Hoje ele é um dos 17 mil voluntários do senador democrata na Carolina do Norte que ameaçam dar uma flechada azul num dos Estados mais vermelhos do país. Desde Jimmy Carter, um sulista, um candidato democrata não acerta no coração da Carolina do Norte.

Com este histórico, o senador McCain não deu bola para o Estado onde liderava com mais de dez pontos em setembro e hoje corre dois pontos atrás. Só veio aqui uma vez depois das primárias. Obama já veio seis.

A governadora Sarah Palin gosta da Carolina. Na bucólica Greensboro, cometeu uma das grandes gafes da campanha: "Gosto de visitar as áreas pró-América do país." E quais são as áreas anti-América? As cidades?
Sequoia, estudante de Ciências Políticas vê uma espécie de vingança democrata: "Este foi o Estado que elegeu seis vezes o senador Jesse Helms, um dos conservadores mais reacionários e influentes na política americana. Não era amigo de índio, nem de negro. Já imaginou como o espírito dele deve estar se sentindo com a possibilidade de ter um negro liberal na Presidência?"
A voz da Carolina mudou de tom e hoje, além de John McCain, ela engrossa com a senadora Elizabeth Dole, republicana da gema, ex-Secretária de Transporte de Ronald Reagan e do Trabalho de Bush pai. Ela também achava que a Carolina estava no papo e agora está ameaçada de perder para uma democrata que nem queria entrar no páreo porque achava que nenhum candidato tinha chances de derrubar Elizabeth Dole, mulher de Bob Dole, ex-senador e candidato à Presidência.

As duas estão empatadas nas pesquisas e os partidos derramam dólares nas campanhas delas. Se a democrata ganhar, o partido vai reforçar a possibilidade de conquistar 60 cadeiras no Senado e ficar à prova de bloqueios republicanos.

A ausência do senador McCain durante a campanha não é o único motivo de sua possível derrota. O desemprego na Virgínia está em 7%, acima da média do país. Houve crescimento na população de imigrantes e de americanos mais educados para áreas mais prósperas envolvidas em alta tecnologia.

Outro fator decisivo é a população negra: 25%, uma das maiores do país. E, mais importante, a crise econômica inseparável de Bush e dos republicanos.

A Carolina do Norte é um dos 34 Estados que permitem votação antecipada e, dos 500 mil que votaram até agora, o comparecimento dos democratas foi o dobro dos republicanos. Há uma corrida às urnas.

O professor Paul Gronke, do Centro de Informação sobre o Centro do Voto Antecipado do Reed College, no Oregon, diz que votar mais cedo facilita o processo, mas não beneficia nenhum dos partidos. "Não sabemos ainda se esta conveniência vai melhorar ou piorar a qualidade das eleiçães a longo prazo, mas as mudanças são grandes e sensíveis. Antes, a eleição era em um dia. Agora são mais de duas semanas de mobilização para tirar o eleitor de casa e levá-lo para votar."
Este foi o trabalho de Sequoia durante todo o dia. Levar e trazer eleitores. Ouviu no rádio do carro a notícia sobre a última pesquisa e está eufórico. Obama abriu mais um ponto de vantagem nas pesquisas nacionais. Em 2004, George Bush ganhou na Carolina com 56% dos votos. Agora está 51 a 47 pró Obama.

A campanha de Barack Obama gera entusiasmo, a de MaCain perde o gás e Sarah Palin, a mágica. Os índices de rejeição a ela dobraram, de 24 para 50%.

Os US$ 150 mil gastos pelo partido no guarda-roupa dela para a Convenção, as viagens de família pagas pelo Estado e mais uma investigação sobre a demissão gerada pela briga dela com o cunhado no Alasca dominaram o noticiário político. A 13 dias da eleição, tempo precioso é gasto em explicações defensivas.

Líderes republicanos já falam abertamente sobre as chances cada vez menores de McCain. Vários deles acham que é hora de parar de gastar na campanha do senador e tentar salvar os senadores ameaçados.

Bye bye, Carolina do Norte.

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