A sedução de Virgínia

Virginia is for Lovers, Virginia é para Amantes, é como o Estado se promove, mas ela não é fácil. O nome vem da rainha Elizabeth 1ª, a Rainha Virgem.

BBC Brasil |

Recordista e, por isto, entre outros apelidos, o Estado é conhecido como Mãe de Presidentes. Gerou sete (talvez 8, depende da opinião de Ohio) entre eles Jefferson e Madison e sua Constituição serviu de modelo para a dos Estados Unidos, mas a Virgínia nunca deu moleza para liberal.

Desde 1948, só votou num democrata - Lyndon Johnson, em 64 - e foi contra seus vizinhos Jimmy Carter, Bill Clinton e Al Gore, todos sulistas. A Constituição original do estado foi re-escrita pelas leis de Jim Crow para reforçar a discriminação racial.

Então como o homem que McCain chama de o mais liberal do Senado americano, e negro, vem seduzindo esta Virgínia? Está com até 10 pontos de vantagem em algumas pesquisas. De todas revoluções desta campanha, uma vitória na Virgínia seria uma das mais, senão, a revolucionária (Geórgia e Kentucky dariam choques semelhantes nos republicanos).

A Virgínia não é mais aquela. Dos cem municípios que mais crescem no país, seis estão no Estado. Durante dois séculos, viveu de tabaco e carvão, hoje exporta mais chips de computadores do que carvão e tabaco, juntos. É a maior fonte de renda do Estado e tem a maior concentração per capita de empregos de alta tecnologia do país.

Na lista da revista Forbes aparece como número um para empresas e abrir negócios. Mas nas pesquisas, economia aparece como preocupação número um dos eleitores, muito na frente do número dois, segurança e terror, e este é um Estado de bases militares.

O atual governador é democrata, como o anterior, e o populista Jim Webb tomou a cadeira de George Allen no Senado, um dos políticos que muitos republicanos achavam melhor que McCain como candidato. Nenhum destes democratas é tão liberal quanto Obama.

O Estado tem um problema chamado Appalachia. Fica nas montanhas do sudoeste do Estado e seus habitantes são brancos que ganham menos de US$ 50 mil por ano, gostam de Jesus, armas, futebol, música rancheira e dependem de carvão.

A região foi desprezada pelos fazendeiros e povoada no século 18 por calvinistas irlandeses e escoceses em fuga de perseguições religiosas inglesas. Ignorada e desiludida por mais de 200 anos pelos políticos, mundialmente famosa pela ignorância e pela pobreza, os apalachianos não acreditam em políticos.

Obama foi convencido pelo senador Jim Webb a investir nos primitivos appalachianos, os homens brancos da caverna do século 21. O problema deles nao é raça, garantiu Webb, descendente de irlandeses. É a imagem de elitista, de um homem diferente deles, do candidato que disse em San Francisco que brancos pobres ficam amargos na pobreza, recorrem à religião, armas e xenofobias, mas se Hillary conquistou estes primitivos, Obama podia se redimir.

Quando Obama garantiu a vitória nas primárias, o primeiro Estado que visitou foi Virgínia, onde ganhou em dez dos onze distritos eleitorais. Só perdeu nas montanhas.

Ouviu os conselhos do senador Webb e montou aqui uma operação três vezes maior do que a do senador McCain, que preferiu administrar o Estado do seu QG em Washington.

Entre as metas dos republicanos, Virgínia deveria levantar US$ 2 milhões para a campanha até novembro. Só levantaram US$ 104 mil. Um fracasso. Quando você conversa com líderes republicanos locais, eles não escondem a decepção com McCain.

"O partido só se animou depois da escolha de Sarah Palin como vice, mas agora ela também é uma decepção. O guarda-roupas de US$ 150 mil é uma bobagem, mas a dez dias da eleição atrapalha a mensagem do partido", me disse Arnold Parr, um republicano desiludido com McCain, em Richmond.

Na equação política do colégio eleitoral, a hipótese parece simples: se Obama ganhar na Virgínia, pode se dar ao luxo de perder em Ohio e na Flórida. Basta ganhar em um de três Estados onde está na frente: Novo México, Colorado e Nevada. Se McCain perder a Virgínia, além de ganhar na Flórida e em Ohio, vai precisar da Pensilvânia e algum outro Estado azul.

Dificílimo, mas não impossível. A Virgínia, como todos amantes, não é confiável.

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