A região mais rica da Bolívia dá uma bofetada em Evo Morales

Os eleitores da região de Santa Cruz, a mais rica da Bolívia, votaram em massa neste domingo em favor de sua autonomia, dando uma bofetada no presidente socialista Evo Morales.

AFP |

Segundo as pesquisas da televisão local, a autonomia foi aprovada por mais de 85,9% dos votos em meio a episódios esporádicos de violência nesta região oriental, fazendo pelo menos 20 feridos.

A região de Santa Cruz, que concentra as principais jazidas de gás do país mais pobre da América do Sul, conclamou cerca de um milhão de eleitores a se pronunciar sobre um estatuto de autonomia, para lhe dar o direito de administrar seus recursos e criar sua própria força policial, entre outras reivindicações.

Morales pediu a população que rejeitasse esta "tentativa separatista", a qual não concederia nenhum valor jurídico. O exército também alertou contra um "perigo grave" para a unidade do país.

Dominada pela oposição liberal, a região rebelde contesta a nova Constituição defendida por Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia, que prevê a redistribuição da riqueza gasífera e das terras em benefício dos camponeses desfavorecidos dos Andes.

O exemplo de Santa Cruz será seguido por outras três províncias prósperas, que realizam um referendo semelhante em junho próximo, fazendo plainar o espectro de uma divisão deste país de 9 milhões de habitantes.

Admirador da revolução cubana, o presidente boliviano culpa uma conspiração orquestrada, segundo ele, pelas elites. Seu aliado venezuelano Hugo Chavez denunciou uma "agressão do império (americano)" durante seu programa dominical "Alô Presidente".

Em Santa Cruz, há pouco, milhares de populares confluíram à praça de Armas para festejar o resultado do referendo que deu apoio esmagador ao estatuto de criação de um governo autônomo constatou a AFP.

Homens, mulheres e crianças foram para a praça com bandeiras nas cores branca e verde, do departamento que apoiou com 85% dos votos - segundo pesquisa de boca-de-urna - a proposta que regulamentará o governo autônomo, com matiz liberal.

Segundo La Paz, os 85% dos votos anunciados pela mídia não levariam em conta o abstencionismo, os votos brancos e nulos, que "soam quase 50% do total de inscritos".

O porta-voz do governo Iván Canelas, assegurou que pelos resultados contabilizados pela presidência, "Santa Cruz está dividida"; recordou a palavra de ordem dos movimentos sociais que era "a abstenção".

Citando dados da rede católica Fides e da rede de televisão ATB, Canelas disse que de um total de 935.000 eleitores, não compareceram às urnas cerca de 400.000 (40%), aos quais seria preciso somar os votos em branco e nulos.

Embora em geral o clima tenha sido tranqüilo na capital da região, de 1,2 milhão de habitantes, foram registrados incidentes em zonas onde predominam os seguidores de Morales, em especial em 'Plan 3.000' - um bairro pobre onde estão assentados 250.000 imigrantes das terras altas da Bolívia; houve queima de cédulas e urnas e choques com paus e pedras entre partidários dos dois lados, constataram correspondentes da AFP.

Ali também foram acesas fogueiras nas ruas para queimar urnas e cédulas, mas paulatinamente a calma retornou.

Também nos povoados santa-cruzences de Montero, San Julián e Yapacaní foram destruídas urnas, com populares bloqueando estradas interdepartamentais.

As divisões em torno do referendo mostram a fratura entre a comunidade indígena andina e a população das planícies agrícolas do leste, onde fica Santa Cruz, de maioria branca e mestiça.

As cidades andinas de El Alto, Cochabamba, Oruro e La Paz realizaram concentrações, hoje, com grande participação popular, contra o referendo autonómico de Santa Cruz. Pediram a prisão para seus responsáveis e ameaçaram com uma greve geral de protesto.

No entanto, outros tres departamentos -Beni, Pando e Tarija- realizarão em junho seus próprios referendos autonômicos seguindo o exemplo de Santa Cruz e ampliando o desafio ao governo esquerdista de Morales.

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