Por Ivan Lessa Todo mundo acha meio idiota, mas eu gosto. Tudo que é meio velho e cheirando a mofo me desperta, no mínimo, a atenção.

Aqui no Reino Unido não há mais aqueles homenzinhos caricaturais de chapéu coco e calça listrada, empunhando um exemplar do The Times e um guarda-chuva, a caminho do trabalho na City de Londres. É todo mundo em trajes descontraídos e celulares a postos.

Deve ser por isso que, juntamente com outros insanos, curto o cargo de Poeta Laureado. Dele, muito debocha boa parte da imprensa local. O cargo, em suas várias manifestações (como tudo que é bom, a coisa é complicada), tem uma história de 341 anos. Do Poeta Laureado espera-se, embora não seja obrigatório, poemas feitos para ocasiões oficiais. Feito aniversário da Rainha, datas históricas, ocasiões estatais e assim por diante.

Sublinhe-se esse "espera-se". A verdade é que não é obrigatório. O último Poeta Laureado (e eu insisto em manter as maiúsculas como pequena homenagem pessoal), Andrew Motion, foi criticado por ter dado muito tempo, ou muitas linhas, de pé quebrado ou não, aos eventos do calendário real, assim como o casamento do Príncipe Edward. Por outro lado, Andrew Motion adentrou a perigosa arena de questões controvertidas, tais como as verdadeiras razões que levaram o país a se envolver no Iraque.

Andrew Motion já era. Hora de troca da guarda. Há Poeta Laureado novo em todas as praças do Reino Unido. Para ser mais preciso, Poetisa Laureada. Carol Ann Duffy, a primeira mulher a ocupar o tradicional posto. Frise-se que não se trata de "boca rica" ou uma dessas mordomias que andaram, e andam, afligindo a nação. O venerando posto corresponde a apenas uns US$ 9 mil por ano. Mais algumas garrafas de vinho simplíssimo. Só. Qualquer um dos membros de nossa Academia Brasileira de Letras fatura muito mais e tem muito menos a fazer, tenho a certeza.

Carol Ann Duffy, ainda agora mesmo, na semana passada, compareceu com seu primeiro poema para o país digerir e, se possível, orgulhar-se ou parar um pouco para pensar. A nova Laureada começou criando caso, o que é um ótimo sinal. Fez o que mais de três séculos de poetas laureados não fizeram: foi de política. E exatamente essa parte da política que vem ocupando espaço nos jornais e na vida dos cidadãos britânicos: os excessos dos parlamentares com suas despesas, o que talvez venha a custar ao Partido Trabalhista (Labour) as próximas eleições.

Pinço apenas uns trechinhos tentando me fazer passar por tradutor só um pouquinho laureado. "Como faz de sua face uma pedra/ que anseia por chorar/ como faz de seu coração um punho (...) como lhe faz suar sangue./Como lhe prende a respiração/como lhe faz beijar a moeda de uma libra caída ao chão/ (...) Como diz o seguinte:/ Política! - à sua saúde e suas riquezas/ este rugir ao compasso da verdade de sua consciência moral. POLÍTICA! POLÍTICA! POLÍTICA!"

Do que se pode deduzir algumas coisas. Primeiro, a minha versão, que não está com nada. Segundo, tudo indica que há uma certa falta de sutileza ou de "poesia" nas linhas que escolhi e, por extensão, nas que deixei de fora. Terceiro, que poema com letras maiúsculas e exclamações é... bom, vou te contar.

O que importa é a intenção. Laureie-se a Poetisa maiúscula e, cá da arquibancada, peçamos: MAIS! MAIS! MAIS!

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