A morte de Salvador Allende no La Moneda bombardeado

Os últimos tiros da metralhadora soviética Aka (um presente de Fidel Castro) foram dados pelo presidente Salvador Allende contra a própria cabeça, por volta das duas horas da tarde de 11 de setembro de 1973, poucas horas depois do início do golpe de Estado que acabou com o governo da Unidade Popular.

AFP |

A rebelião militar havia começado na madrugada daquele dia, quando o almirante José Toribio Merino prendeu o comandante-em-chefe da Marinha e sitiou as grandes cidades costeiras de Valparaíso, Viña del Mar e Talcahuano.

O Exército, com Augusto Pinochet à frente, dominou a capital Santiago e as cidades do Norte e do Sul pela manhã, com tanques e infantaria, e o general Gustavo Leigh, chefe da Força Aérea, ordenou que seus caças Hawker Hunter bombardeassem o Palácio presidencial de La Moneda.

O supostamente leal chefe da polícia dos Carabineiros, César Mendoza, negou defesa ao governo e se colocou sob o comando dos militares, fechando o cerco contra "o câncer comunista" (palavras de Leigh).

Mas o último a aderir ao golpe, a apenas poucas horas da rebelião militar, foi Pinochet, lembrou em 1987 um livro de Nathaniel Davis, um dos embaixadores dos Estados Unidos em Santiago na época de Allende.

"Tenho certeza de que meu sacrifício não será em vão... que pelo menos será uma lição de moral que castigará a traição e a covardia", disse Allende em sua última mensagem de rádio transmitida de La Moneda, quando os aviões militares já voavam rumo a Santiago.

"Podem subjugar, mas os processos sociais não serão detidos nem com o crime nem com a força" (...) "continuem vocês sabendo que muito mais cedo do que tarde, de novo se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem livre para construir uma sociedade melhor", profetizou o presidente de 64 anos.

Depois de uns poucos disparos feitos do Palácio sitiado de La Moneda contra tanques e aviões, Allende recusou as propostas de rendição, tanto dos novos comandantes militares quanto de seus próprios colegas no palácio, que somavam cerca de 40 homens. Nos bairros da capital Santiago, uma esperada resistência cívica aos golpistas se desfez em minutos.

Os Hawker Hunter haviam disparado sobre La Moneda quase 50 foguetes, segundo Danilo Bartulin, um dos guarda-costas sobreventes do combate.

"Creio que (Allende) se suicidou de pé, não sentado numa poltrona, como acreditei no começo", relatou anos depois Patricio Guijon, médico pessoal e amigo do presidente que estava mais próximo de Allende na hora do suicídio.

Doutor em Medicina, político desde jovem, ministro e parlamentar, Allende havia conquistado a presidência em 4 de setembro de 1970, como o primeiro marxista declarado eleito chefe de Estado através das urnas na América Latina.

"O Chile (com um esquerdista) tinha a possibilidade de subverter outras nações de forma mais acentuada que Cuba", explicaria em 1982 Henry Kissinger, o secretário de estado do presidente norte-americano Richard Nixon.

Com Allende, Nixon havia lamentado a nacionalização das minas chilenas de cobre, a maior riqueza do país, historicamente nas mãos de empresas norte-americanas.

Apesar de admirador do regime cubano, Allende havia comemorado sua vitória eleitoral e a derrota da Democracia Cristã e das direitas em 1970 como o começo de uma revolução pacífica, com "sabor de vinho tinto e empadas", a tradicional guloseima nas festas nacionais.

Com Allende "se instalou o caos e o ódio e o Chile estava à beira da guerra civil e de uma tirania comunista em 1973", acusaria depois Pinochet, reivindicando para si a derrubada do presidente.

De comandante do Exército, Pinochet passou a chefe da Junta Militar de Governo, a presidente do grupo colegiado e finalmente a Presidente da República, cargo que ocupou até 1990.

Pinochet se tornou depois senador vitalício, mas perdeu a imunidade inerente ao cargo no mês passado por decisão da Corte Suprema e agora enfrenta 170 denúncias por desrespeito aos direitos humanos sob seu regime, que deixou de herança uma economia ultraliberal elogiada no mundo e a dor de cerca de 3.000 opositores assassinados.

"A Unidade Popular cometeu grandes erros, mas não crimes", segundo Jacques Chonchol, ministro da Reforma Agrária do governo Allende.

Quando as tropas tomavam o poder em 1973, nem a agricultura nem a indústria, em sua quase totalidade em mãos do Estado, eran incapazes de satisfazer a demanda e o abastecimento mínimo.

Resta farinha para fazer o pão de dois ou três dias, advertia Allende em setembro, enquanto o Chile vivia ao compasso das sabotagens dos ultraconservadores, das lutas políticas de grêmios empresariais e da oposição da direita tradicional e da democracia cristã e, por outro lado, das greves sindicais incentivadas pelos mesmos allendistas.

"Nós militares não buscávamos o poder... vieram bater às portas dos quartéis para que salvássemos o Chile", assegurou Pinochet pouco antes de deixar o poder, derrotado no plebiscito de 1988 pela União dos Partidos pela Democracia, a até então inimaginável coalizão dos inimigos do passado, a esquerda socialista e os democratas-cristãos.

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