A monotonia das férias

Acabou a correria. O que era para se conhecer do mundo já foi conhecido.

BBC Brasil |

Conhecido? Só de cumprimentar.

Aquelas cidades todas. Viraram o que deveriam ter sido o tempo todo: cartões postais. Uma ou outra foto. Recibos de restaurantes, passagem de metrô, papel de carta de hotel. Tudo dentro de guias, livros ou revistas relativas às viagens.

Sobrou cidade para cumprimentar ligeiramente que não acaba mais. Cidade que seria de interesse pessoal pegar uma leve, levíssima, intimidade. Madri, Los Angeles, Nápoles. E mais umas dez ou vinte. Tem importância, não. Vi nos filmes. Devem ser direitinho aquilo que cerca atores e trama. Com a vantagem de não ter cheiro e não dar calo no pé. Para não falar nos horrores dos aeroportos. Para se ir, para se chegar.

Férias, agora, ou de algum tempo para cá, passaram a ser algo simples e sem muitas novidades. Em matéria de novidade já bastam os pulmões e o coração darem para o gasto de se andar até a piscina, dar uma nadadinha meio tola, andar até o restaurante mais próximo. O resto, só de rádio-taxi.

Entrego, repito, o jogo. Férias passaram a ser Portugal. Lisboa. Estoril. Cascais. Pego a devida intimidade: fica na "linha". Do comboio. É trem. Pego a meia dúzia de lusitanismos que não foram - ainda - cogitados de reforma e unificação vocabular e enfeito de aspas. Que eles merecem. São meu sotaque verde e amarelo. Que neles coloco como um boné.

Cascais. Vai se enfeitando cada vez mais a cada ano que passa. A rigor, forçoso é admitir que vem melhorando. Assustadoramente. Na intimidade que desfruto fartamente comigo mesmo, confesso que eu preferia uma Cascais de 1980, ou por aí. Mais tosquinha (ah, os diminutivos em que vivo na terra de Camões!), menos catita. Bem, mas bem mais barata mesmo. Todos me dizem que lá, como em todo mundo (principalmente Londres, que é a cidade mais cara do mundo), a vida está mais cara. Me dizem há anos. Chego lá e descubro a verdade dessas palavras.

Nada, no entanto, que se compare à cidade onde vou vivendo praticamente da mão para a boca, ou da boca para a mão, a cada dia. Se é que isso quer dizer alguma coisa. Espero que não. Notarei a diferença nos ônibus que fazem o percurso (monótono e sem graça feito eu) circular da cidade, e que são uma roda na mão, conforme dizia Dona Marta, uma senhora alemã que trabalhou conosco (nunca para a gente) durante décadas.

Pensarei nela nas horas de lazer. Que serão muitas. Sentadão na cadeira de piscina (é "pixina" que se diz, insisto, como uma Academia de Ciências de Lisboa) e lendo os jornais, antes de mergulhar no romance policial e na água azuladinha. Muito divertido ler os jornais portugueses. Corrijo-me: muito divertido ler qualquer jornal de cidade em que se está de passagem. Mas os jornais portugueses são melhores, mais relaxantes, mais férias. Assim como as cem maneiras de se preparar bacalhau e as mil e uma sobremesas à base de ovos e um descalabro de açúcar.

Os lusitanos
Eu não entendo 90% daquilo que preocupa meus queridos portugueses. Compreendo que é um desatino morrer na passagem de nível. Entendo porque (ou mais ou menos) um jovem aparentemente são de repente vai e degola a namorada e se mata depois.

Sei que as águas da praia das Maçãs estão perigosas. Concordo que se deva desaconselhar as pessoas a não irem de carro para o Algarve a mais de 100 km por hora. Mas os excelentíssimos senhores doutores políticos que me perdoem: quem são Vossas Excelências? O que fazem e o que querem? Fico contente de só de tomar conhecimento de suas andanças e cheganças nesta época de férias. Em doses homeopáticas deveriam vir e agir todos os homens públicos de todo o mundo.

Lusitanos nomes tão familiares. Mas há sempre talentos novos despontando. Como no futebol. Um dia tem Felipão, outro não tem. Surge, vindo sabe Deus donde, um Nuno Fernão Manuel das tantas e quantas. E manda brasa. Na televisão, no jornal das oito, ainda adquire mais carisma e proporciona maior diversão. Exatamente como o mundo deveria ser. Políticos engraçados dizendo coisas sem o menor sentido. Viram misteriosos. Cobrem-se do véu caprichoso das coisas ocultas. São todos pistas para o deslindar do famoso (e apócrifo) Código Da Vinci.

Na praça Luís de Camões, paro na porta da papelaria, logo ao lado do Beco Esconço, e tento decifrar manchetes de jornais alemães, italianos, franceses e até mesmo britânicos. Nenhum deles diz coisa com coisa. Nenhum faz sentido. Isso é bom. Assim é como deveria ser sempre. Feito no último verso de um poema que bem poderia levar a assinatura de um dos heterónimos (aqui procêis, reformistas ortográficos!) de Fernando Pessoa: só o Beco Esconço sabe do mundo.

E pode ser Esconso também.

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