A. Latina quer decidir bases da política e economia junto aos países ricos

Pilar Valero. Madri, 28 out (EFE).- A tempestade que ameaça a América Latina pelo impacto da crise financeira é vista também por governantes dos países emergentes como uma oportunidade única para exigir que eles decidam junto às grandes potências as novas bases da ordem política e econômica mundial.

EFE |

A 18ª Cúpula Ibero-Americana, realizada em San Salvador de 29 a 31 de outubro, será a primeira ocasião em que os chefes de Estado e de Governo de toda América Latina, além dos de Espanha e Portugal, se reúnem para discutir a crise financeira que teve início nos Estados Unidos.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que "chegou a hora das decisões políticas" e reivindica ações mundiais, nas quais a maior economia latino-americana quer ser ouvida.

Para a presidente chilena, Michelle Bachelet, é essencial acelerar as reformas das instituições multilaterais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial (BM).

O mesmo discurso foi adotado pelo presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero, para quem o FMI necessita de um novo mandato da comunidade internacional para "trocar sua paisagem, sua natureza e suas funções".

"Os países emergentes devem ter uma participação muito mais ativa. São nações que hoje têm um papel muito importante no mundo e são peças fundamentais para a solução dos problemas que temos", disse à Agência Efe o secretário-geral ibero-americano, Enrique Iglesias.

Os EUA convocaram para 15 de novembro em Washington uma cúpula para remodelar o sistema financeiro, na qual participarão os líderes do G20 - os países mais ricos e os principais emergentes, entre os quais estão Brasil, Argentina e México.

Nos últimos meses, os dirigentes da América Latina censuraram os organismos multilaterais que durante décadas deram lições às nações em desenvolvimento e se calaram diante do poder de alguns países ricos.

Porém, enquanto Lula e outros dirigentes da região reivindicam reformas financeiras que dêem um maior papel regulador ao Estado, sem questionar as bases do sistema capitalista, outros apostam em uma ruptura.

É o caso do presidente venezuelano, Hugo Chávez, para quem a região deve assumir o controle de seu próprio desenvolvimento econômico dentro de um sistema socialista. O governante também recomendou ao FMI "que se suicide".

Chávez, que no sábado passado anunciou que não participaria da cúpula porque sua "vida não estaria garantida" em El Salvador, conta nessa linha radical com o apoio dos dirigentes de Equador, Bolívia e Nicarágua.

A crise reflete "a doença terminal" do sistema capitalista, disse o presidente nicaragüense, Daniel Ortega.

No entanto, todos coincidem no objetivo político de avançar rumo a uma União Latino-Americana que reúna mecanismos de integração existentes, como o Mercosul, a Comunidade Andina, a Unasul, o Sica e a Caricom.

Lula, que consolida sua liderança regional e internacional, convocou uma cúpula de 33 países da América Latina e do Caribe para 16 e 17 de dezembro na Bahia com o objetivo de avançar rumo à integração e estabelecer acordos sobre mecanismos que ajudem a proteger o continente da crise.

Segundo o BM, a América Latina está mais bem preparada que no passado para enfrentar a conjuntura internacional, graças às reservas monetárias que possibilitaram seis anos seguidos de crescimento.

Mesmo assim, o organismo afirma que os países da região não escaparão do impacto das dificuldades de acesso ao crédito, da queda dos preços das matérias-primas e da diminuição das remessas de seus emigrantes.

Em termos políticos, a Cúpula Ibero-Americana tratará de uma região inclinada majoritariamente para a esquerda, na qual México, Colômbia e El Salvador são os únicos referentes conservadores.

El Salvador, país anfitrião, realiza eleições presidenciais em março de 2009, e as pesquisas dão vantagem a Mauricio Funes, o candidato da esquerdista Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN).

O populista de esquerda Hugo Chávez aproveitou os até agora altos preços do petróleo, produto do qual a Venezuela é o quinto maior exportador mundial, para promover dentro e fora do país seu projeto de "socialismo do século XXI".

Entretanto, nos últimos três meses, o petróleo perdeu mais de 40% de seu valor, o que pode afetar os projetos de Chávez, entre eles a Petrocaribe, uma aliança com 16 países da América Latina e do Caribe aos quais exporta petróleo a preço preferencial.

A Cúpula Ibero-Americana será realizada uma semana antes das eleições presidenciais nos EUA, que perderam nos últimos anos sua posição tutelar na América Latina.

Paralelamente, a Rússia se aproximou da região através da Venezuela, país ao qual vendeu material militar, e do qual se define como aliada estratégica.

O presidente russo, Dmitri Medvedev, visitará a Venezuela poucos dias depois das eleições regionais e municipais de 23 de novembro, e no mesmo mês em que está prevista a chegada ao país sul-americano de navios da frota russa para exercícios navais conjuntos, vistos com cautela por Washington. EFE va/ab/plc

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