A história leva a Polônia e os países bálticos a se solidarizarem com a Geórgia

O trauma das tragédias infligidas por Stalin a seus subordinados e o temor ancestral ao poderio russo explicam a solidariedade quase incondicional demonstrada por Polônia, Ucrânia e países bálticos para com a Geórgia.

AFP |

Nesta terça-feira, numa atitude pouco comum, os chefes de Estado polonês, ucraniano, lituano e estoniano, acompanhados do primeiro-ministro da Letônia, viajaram juntos à Geórgia.

"A nossa é uma visita de solidariedade de nossos cinco países para com a nação georgiana que foi vítima de uma agressão", destacou o presidente polonês, Lech Kaczynski, antes de deixar Varsóvia. "A Rússia mais uma vez mostrou sua cara, sua verdadeira cara", disse.

Desde sábado, Lech Kaczynski e seus três colegas dos países bálticos denunciaram a "política imperialista da Rússia".

Os poloneses e os povos dos países bálticos têm fronteiras comuns com a Rússia. Eles se identificam facilmente com os georgianos que vêem como vítimas da potência militar russa.

"Estas nações se lembram ainda como em 1939 o exército soviético entrou em seus territórios para supostamente proteger suas minorias étnicas", lembrou Bartosz Cichocki, um pesquisador do Instituto polonês dos assuntos internacionais. "Estes países têm ainda na memória, a lembrança de sua dependência de Moscou", acrescentou.

"Sofremos as mesmas coisas", destacou por sua vez Zygimantas Pavilionis, secretário de Estado lituano para Assuntos Exteriores.

Os três países bálticos cultivam a lembrança das deportações em massa de seus cidadãos para a Sibéria em 1941 (43.000 pessoas no total).

Os poloneses têm sobretudo memória da morte de 22.000 oficiais prisioneiros dos soviéticos executados um por um com um tiro na nuca em 1941 em Katyn e em outros campos de concentração - uma história levada ao cinema por Andrzej Wajda e que por cerca de três milhões de espectadores na Polônia.

"As pessoas temem certamente que a Rússia agrida a Lituânia, como fez com a Geórgia", explicou o cientista político lituano Kestutis Girnius.

Segundo ele, o risco é ainda maior nos países como a Letônia e a Estônia, onde os habitantes de fala russa constituem aproximadamente um terço da população.

"Quando uma agressão militar é justificada pela necessidade de proteger os interesses dos cidadãos russos na Geórgia, isto representa sérios problemas aos países que têm residentes com cidadania russa", declarou sábado o ministro estoniano dos Assuntos estrangeiros, Urmas Paet.

"Nos países bálticos e na Ucrânia, a independência é ainda tida como muito frágil, e não necessariamente adquirida para sempre. Se não a defendermos ativamente, ela pode não durar", destacou o analista polonês Cichocki.

"Temos medo de um precedente", confiou à AFP o secretário de Estado lituano Zygimantas Pavilionis, "o caso dos Sudetos da Tchecoslováquia pode se repetir".

Em 1938, durante uma conferência em Munique, a França e o Reino Unido deixaram Adolf Hitler anexar a região dos Sudetos, argumentando a necessidade de proteger os interesses da população de fala alemã da Tchecoslováquia.

O presidente lituano, Valdas Adamkus, fez comparação similar nesta terça-feira. "Não podemos nos permitir que a história se repita: a comunidade internacional se apagando diante de Hitler, o que levou à II Guerra Mundial, a tragédias imensas e a milhões de vítimas", disse.

"Para mim, todos estes temores são infundados", amenizou, por outro lado, o cientista político Kestutis Girnius. "Os países bálticos são membros da Otan e a Rússia sabe muito bem".

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