A Hill Valley asteca de Iowa

Alguém aí lembra de Hill Valley? Esse é o nome da cidade que aparece na trilogia De Volta para o Futuro nos cinemas. A cidade é tudo aquilo que uma cidade americana deveria ser, especialmente no primeiro filme da série, quando Marty McFly (Michael J.

BBC Brasil |

Fox) vai para o passado e vive suas confusões em 1955 ao cruzar com sua mãe e seu pai ainda jovens. Hill Valley tem sua pracinha, sua lanchonete, seu prédio central (aquele do relógio) e habitantes com aquele biotipo bem americano.

Durante a viagem que estou fazendo pelos Estados Unidos, a imagem de Hill Valley pipocou na minha cabeça várias vezes, mas sempre para me falar que a cidade não existe nem poderia existir de verdade. Até agora, todas as cidades que encontrei têm tanta influência de latinos ou de outros imigrantes que eu sinceramente acreditava que o país estivesse para sempre separado daquela utopia representada no cinema.

Porque, obviamente, não há mais nenhuma cidade nos Estados Unidos que não manifeste os efeitos da imensa imigração latina, certo? Em cada vilarejo, você encontra pelo menos um hermano com quem você pode conversar em espanhol, certo?
Errado. Hoje veio a prova disso.

A suprema ironia de Montezuma, Iowa, é seu nome. Montezuma 2° foi o líder asteca que expandiu o império a sua extensão máxima e viu a chegada dos conquistadores espanhóis. Por isso talvez se possa afirmar que Montezuma é um dos sinônimos do que há de mais profundo na cultura mexicana, que é a herança do Império Asteca.

Os mexicanos hoje estão dominando os Estados Unidos - cerca de 60% dos imigrantes hispânicos do país são de origem mexicana. Mas na cidadezinha de Montezuma não conseguimos encontrar um latino sequer. Mais que isso: não conseguimos encontrar uma pessoa sequer que falasse espanhol.

Segundo o Censo americano, Montezuma, que tem na agricultura a base de sua economia, tinha em 2000 (ano do último balanço disponível) 1.440 habitantes. Desse total, seis eram latinos. Um dos meus colegas de viagem, José, disse que provavelmente eles estavam trabalhando em alguma fazenda isolada nos confins da cidade.

Eu disse que podia ser que eles tivessem ido embora. Vai saber. Só sei que procuramos qualquer traço de influencia latina na cidade e demos com os burros n'água. A cidadezinha é uma Hill Valley, um pouco menos fotogênica e com umas casas um pouco menos preservadas.

A praça central tem um tribunal, ao redor da qual há algumas lojas e um banco. Uma das ruas laterais dá para a sede do jornal local (o Montezuma Republican) e para um boliche - provavelmente um dos lugares mais importante da cidade. No domingo meio chuvoso em que visitamos a cidade, o lugar abriu às 13h e logo se encheu de famílias com seus filhos. Também era o único lugar em Montezuma em que parecia funcionar uma lanchonete decente.

Decidimos almoçar lá e nos trataram bem. Chegamos no balcão e pedimos uns sanduíches de churrasco. Perguntamos à moça que nos atendeu se ela conhecia algum imigrante na cidade. Ela fez uma cara pensativa, refletiu um pouco. Veio então um não previsível e sem nenhum tipo de comentário adicional.

Na verdade, o que me pareceu que ela queria dizer e não disse é "por que haveria imigrantes aqui?" Sentamos a uma mesa. Estavamos cercados pelas famílias jogado boliche, mães, pais e filhos bem anglo-saxões. "Para cá poderiam mandar crianças latinas para aprender inglês. Aprenderiam um inglês perfeito", disse José, um dos meus companheiros de viagem. "Aprenderiam todas as palavras usadas em fazendas", comentou Carlos, outro que viaja comigo. Uns minutos depois, José pegou o cardápio e apontou para alguns pratos listados: nachos, burritos. "Tá vendo, pelo menos comida tex-mex eles têm aqui!"
Uma projeção do Censo americano indica que em 2050 o número de hispânicos vai triplicar nos Estados Unidos (em relação a 2005) e eles serão 29% da população americana. E uma reportagem da rede de TV americana Univision, que transmite em espanhol para todo o país, revelou que em média 1 em cada oito americanos já fala espanhol.

Por isso, acho compreensível que minha sensação em Montezuma foi de completa estupefação. Fiquei me perguntando se é questão de tempo até que cidades como Montezuma deixem de existir. E se esta Hill Valley com nome asteca é mais "americana" do que cidades no país em que se fala muito mais espanhol do que inglês.

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