A Flor escondida de Chicago

Em uma igreja no oeste de Chicago, um protesto por mudanças nas leis americanas está em andamento. Escondido, mas nada silencioso.

BBC Brasil |

Flor Crisostomo, uma índia mexicana de 29 anos, mora desde 28 de janeiro no bairro de Humboldt Park, numa rua dominada pela comunidade portorriquenha.

Ela ocupa um apartamento humilde no segundo andar da Igreja Metodista Adalberto, que em quase nada destoa de lojas vizinhas.

À primeira vista, Flor parece ser uma imigrante normal, como as milhões que vivem nos Estados Unidos em situação ilegal. Ela luta por uma vida melhor para si e para os três filhos que estão no México sem vê-la há oito anos.

Mas Flor se tornou um dos símbolos da luta contra as leis de imigração depois que decidiu desafiar uma ordem de deixar o país. Após ter sido presa numa grande operação contra ilegais em 2006, ela entrou na Justiça contra a medida.

Depois de meses de batalha, em dezembro seu advogado recebeu uma carta das autoridades migratórias dizendo que o caso dela não tinha mais recursos possíveis, e que ela deveria deixar os Estados Unidos em 28 de janeiro deste ano.

Em 28 de janeiro, ela buscou abrigo na igreja. Desde então, nunca mais saiu à rua.

"Decidi não ir embora porque não posso, depois de dois anos de luta, mandar uma mensagem ao povo dizendo que temos que nos autodeportar quando o governo decida que simplesmente temos que ir", disse Flor com sua voz calma, ressaltando que não tem medo de que agentes de imigração acabem invadindo a igreja para pegá-la.

"Eu estou consciente de que, a qualquer momento, podem me prender e me deportar. Mas, se tiver que sair, vou com muita dignidade, porque estou ensinando a meus filhos que têm que se defender, que calados não vamos ganhar essa luta."
Desde que começou a viver na Igreja, Flor se dedica a falar com a imprensa e a mobilizar pessoas pela sua causa, usando a internet e o telefone.

Ela se recusa a aceitar que tenha violado qualquer lei ao ficar nos Estados Unidos sem respaldo das autoridades e se diz vítima de um "deslocamento forçado' por causa das políticas adotadas pelo goveno americano.

Ela é particularmente crítica dos efeitos do Nafta, o Tratado de Livre Comércio da América do Norte, que une os Estados Unidos, o México e o Canadá.

Ela explica que os pequenos produtores agrícolas de cidades do interior mexicano receberam um duro golpe em 1994, quando o acordo começou a vigorar.

"O tratado de livre comércio tinha como uma de suas metas proporcionar bons negócios para os pequenos e médios empresários no México. Mas foi o contrário. Cada dia estamos vendo, desde 1994, que quando se fala de livre comércio está se falando de beneficiar as grandes corporações, que na maioria são dos Estados Unidos."
"A imigração é produto do Nafta. O deslocamento forçado é produto do Nafta. O povo americano tem que compreender que nós estamos aqui de maneira forçada", disse.

Curiosamente, a necessidade de rever o Nafta tem sido um dos pontos de debate na campanha presidencial dos Estados Unidos.

Muitos americanos, especialmente de Estados industriais como Ohio, reclamam do tratado, dizendo que ele foi responsável por cortes nas vagas de trabalho das indústrias americanas.

Flor herdou a "luta" de Elvira Arellano, uma outra mexicana que buscou abrigo na mesma igreja antes dela.

Elvira morava no apartamento com seu filho. Depois de 12 meses sem pisar na rua, Elvira se arriscou e viajou para Los Angeles, para participar de um protesto.

Foi celeremente presa e deportada. Mas sua seguidora não planeja sair tão cedo da igreja e promete uma grande mobilização em Chicago e nacionalmente no dia 1º de maio, para pedir mudanças nas leis de imigração e no Nafta.

Uma porta-voz do Departamento de Imigração americano disse em janeiro que Flor será presa e deportada no momento adequado - obviamente sem revelar o que pretendem fazer.

Conservadores americanos esperam que algo aconteça logo, já que a ousadia da mexicana pode elevar a tensão entre ativistas pró e contra a imigração.

Há também os que dizem que tudo que Flor está fazendo é inútil. "Para mim, é apenas mais uma situação onde ela pode fazer exigências, mas nada irá acontecer em termos de legislação", disse ao jornal Chicago Tribune Dave Gorak, diretor-executivo da ONG Coalizão do Meio Oeste para Reduzir a Imigração.

Sendo seu protesto inútil ou não, Flor permanece observando de longe, escondida, mas bem no centro do debate.

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