A felicidade não é como a pluma

Essa minha mania de acreditar em letra de música. Principalmente se for de Noel, Orestes e Vinícius.

BBC Brasil |

"A felicidade é como a pluma", sentenciava aqueles que o chamam de "poetinha", querendo com isso denotar alguma espécie de intimidade com o co-autor do Orfeu da Conceição.

Uma coisa eu juro: Vinícius de Moraes (eu não tinha intimidade; apenas bebíamos juntos) estava por fora quando comparou um estado de espírito insuperável a essas penas de barbas longas voando pela cidade.

Felicidade não é de jeito nenhum isso. Juro.

A felicidade, a gente gasta uma fortuna e vai para outro país no mais pesado que o ar (nunca de ou em plumas) tentando - nem precisa ser felicidade - dar um toque lá nela.

Felicidade? Exagero. Palavra forte demais. Basta apenas chamar de "uma vidinha melhor".

Foi o que fiz, sem plumas, há mais de 30 anos quando cá em Londres cheguei. Eu andava meio brigado com o Brasil, que inclusive eu chamava, só de sacanagem, de Bananão, para ver se ele e as pessoas nele contidas (era uma época em que militares tinham a mania de conter os cidadãos mais chatos, no entender lá deles) tomavam jeito.

Não tomaram. Ao que parece. Pelo que leio. Pelo que me dizem.

A felicidade é o que os pobres - de espírito, de recursos - vivem procurando. Voa tão leve e tem a vida breve. Segundo Vin - e pronto anunciei, indevidamente, intimidade.

Vai ver ela é feito pluma mesmo. Eu é que, classe média que sou, estou por fora.

Fato é que o Reino Unido está caindo de gente que não nasceu aqui. Tudo a fim de pegar uma beirada nessa famosa "felicidade". Daí que a imigração virou problema no país. O papo agora é conter a turma que não para de chegar. Ou então abrir as portas, sorrir e dar as boas vindas junto com um abração.

Uma das muitas comissões européias calcula que a população britânica passará dos seus atuais quase 61 milhões de habitantes para, em 2058, chegar à casa - ou às favelaças - de 77 milhões.

Felizmente, nesse dia, eu estarei com 123 anos e mais ocupado com minha cadeirinha de rodas do que com esses estrangeiros todos que me cercarão.

Agora mesmo, em 2006, chegaram a estes verdes prados perto de 590 mil estrangeiros.

O que fez, presumo, com que 400 mil nativos deixassem o país em troca da Espanha, Itália ou França em busca da tal pluma que o Vinícius empinou um dia, como se fosse pandorga, papagaio ou pipa, em parceria com o Tom Jobim, que agora é aeroporto maltratado e não mais papo enrolado de botequim.

Vai ver é mais feliz assim.

Felicidade se aprende na escola
Se aprende mesmo. Segundo os americanos. Tal de Penn Resiliency Program, ou Programa de Resiliência Penn, para os monoglotas em estado de migração.

Segundo o esquema esse, a felicidade tem uma base científica e mais de 1.500 alunos em 22 colégios britânicos estão servindo de cobaia para essa recente inovação técnica dos "primos do além-mar", conforme são chamados os eleitores de Obama ou McCain.

A felicidade é uma arte, informa o Programa Penn. É arte, como balé e aquarela, e pode ser ensinada, mediante a adoção de uma "psicologia positiva", conforme o linguajar altamente técnico daqueles que implantam e difundem o método.

Um método segundo o qual as crianças aprendem a lidar com situações difíceis (como esfaquear um desafeto sem ir parar em cana, por exemplo) e emoções complicadas (aquele troço que eles sentem quando vêem mulher pelada, outro exemplo).

Some-se a isso as disciplinas de como relaxar e tomar decisões e, pronto, como num passe de mágico, salta mais uma criança feliz pronta para ingressar, sorridente, na sociedade dos adultos.

Se a criança nasceu na Somália ou no Paquistão e agora está na fila, juntamente com o papai e a mamãe, aguardando uma licença para nestas ilhas se estabelecer legalmente, e dar os primeiros passos no rumo da felicidade, o Programa Penn não conta.

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