A dois meses de encontro crucial, reunião sobre clima termina dividida

Duas semanas de negociações conduzidas pela ONU terminaram nesta sexta-feira em Bangcoc, na Tailândia, sem que delegados de cerca de 180 países chegassem mais perto de um acordo para substituir o Protocolo de Kyoto, sobre a redução de emissões de carbono, que expira em 2012.

BBC Brasil |

A menos de dois meses da reunião sobre o clima mais importante do ano, que ocorre em dezembro na capital dinamarquesa, Copenhague, o mais alto representante da ONU para mudanças climáticas, Yvo de Boer, admitiu uma "contínua falta de clareza" em questões-chave para um possível acordo.

As principais pedras no caminho são estabelecer uma meta de emissões de carbono para os países desenvolvidos e definir uma "arquitetura financeira" para ajudar países mais pobres a realizar mudanças visando a combater a mudança climática.

Cientistas afirmam que, para evitar uma elevação de 2º C na temperatura do planeta, as nações industrializadas precisam nos próximos dez anos reduzir as suas emissões de carbono a um nível equivalente a entre 25% e 40% das emissões de 1990.

Entretanto, as negociações têm ficado muito aquém disso, e o percentual convencionado não passa de 23%.

Antes mesmo da reunião, o próprio de Boer disse que seria "muito difícil continuar trabalhando de boa fé a menos que vejamos um avanço nas cotas dos países industrializados e suas ofertas sobre a mesa".

Propostas

A proposta mais arrojada até o momento foi feita pela Noruega, que anunciou durante o encontro a meta de reduzir em 40% dos níveis de 1990 suas emissões de carbono em dez anos - coincidindo com o cenário mais ambicioso sugerido por cientistas.

Entretanto, nos Estados Unidos, um dos líderes do planeta em emissão de poluentes, um projeto aprovado na Câmara dos Representantes prevê chegar até 2020 com um corte de apenas 17% em relação aos níveis de 2005.

Isso representaria não mais de 4% abaixo dos níveis de 1990.

O país nunca sancionou o Protocolo de Kyoto e, nesta sexta-feira, o negociador americano no encontro, Jonathan Pershing, deixou claro que seu governo não aceitará uma extensão do atual entendimento, que exige de 37 países industrializados que cheguem a 2012 com um nível de emissões 5% menor que em 1990.

"Acho que será extraordinariamente difícil para os Estados Unidos se comprometer com um número específico na ausência de uma ação do Congresso", afirmou.

"Isso não significa que um acordo é possível. Também não significa que não teremos um número partindo do Congresso. A questão está aberta em relação ao podemos fazer, e isto é uma hipótese que não podemos realmente responder."

Ele reiterou a posição dos países industrializados de requerer de nações emergentes, como China, Brasil e Índia, semelhante compromisso legal.

Entretanto, essas nações alegam que querem contribuir para o combate ao aquecimento global, mas não às custas de seu próprio desenvolvimento.

Custos

Além disso, há a questão de como bancar os custos de adaptação das economias dos países não-industrializados.

Segundo uma estimativa do Banco Mundial, esta mudança nos países em desenvolvimento custará entre US$ 75 bilhões e US$ 100 bilhões entre 2010 e 2050.

Sem avanços também nesta questão, e apenas com um encontro prévio a Copenhague - uma semana de negociações em Barcelona no início de novembro -, começam a surgir críticas à suposta falta de ação dos países desenvolvidos.

"Não podemos continuar a perder tempo desperdiçando mandatos políticos", disse a porta-voz da ONG WWF, Kim Carstensen. "Minha preocupação é que, sem clareza política dos países em temas como finanças e metas de redução de emissões, o próximo encontro em Barcelona será mais uma rodada de discursos sem os avanços políticos que necessitamos'".

Já o conselheiro da Oxfam sobre o clima, Antonio Hill, afirmou que a falta de "vontade política dos líderes dos países ricos" terá um efeito mais nocivo sobre as populações dos países pobres, mais vulneráveis aos efeitos da mudança climática.

Em linha com as outras organizações, o coordenador de mudança climática da ONG ActionAid, Tom Sharman, disse que "não pode haver acordo justo em Copenhague a menos que os países mais ricos comecem a repagar sua dívida climática".

"Isso significa fazer grandes cortes em suas emissões e prover recursos significativos para os países em desenvolvimento".

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