A difícil tarefa de unir negros e latinos nos EUA

As comunidades negra e latina dos Estados Unidos não têm, digamos, uma relação tranqüila. Hispânicos e afro-americanos disputam historicamente os mesmos empregos e recursos sociais, e, em cidades como Chicago, essa tensão já se traduziu em episódios de violência entre membros dos dois grupos.

BBC Brasil |

Muitos bairros da cidade podem ser divididos mais ou menos de acordo com linhas étnicas: os negros dominam a região mais ao sul - onde o pré-candidato democrata à Presidência da República Barack Obama criou sua base eleitoral.

No oeste, há muitíssimos latinos. Unir os dois grupos tem sido um desafio que organizações sociais de Chicago têm enfrentado pelo bem comum de reduzir a criminalidade nos bairros mais pobres. Mas a tarefa tem se mostrado extremamente difícil.Eu conversei com Camille Williamson, que trabalha numa dessas organizações, a Southwest Youth Collaborative. Williamson e seus colegas atuam na região sudoeste de Chicago, onde convivem negros e latinos.

Ela acredita que é importante fomentar o diálogo entre as duas comunidades lembrando sempre que elas têm um problema em comum: a pobreza. "Chicago é uma cidade segregada", explica. "Há comunidades afro-americanas, há comunidades latinas. Não estou dizendo que as duas comunidades não se misturam. Mas geralmente brancos não vivem na mesma comunidade onde há pessoas de cor." Segundo ela, essa situação "sim, cria uma tensão, mas não uma tensão entre brancos e negros e sim entre os pobres e o status quo".

"Há interesses, questões, que dividem latinos e negros, com certeza. Especialmente a imigração", explica Gary Klass, professor da cadeira de Raça e Política da Illinois State University.

Segundo ele, uma das raízes da aversão dos negros aos latinos é que os hispânicos que são imigrantes ilegais têm tirado empregos dos negros. Por sua vez, segundo o jornal Chicago Tribune, os hispânicos da cidade associam os negros ao crescimento da violência em suas vizinhanças.

A brasileira Elaine Cristina Lima Santos, que mora em Chicago desde 2005, diz ter testemunhado como os latinos ilegais acabam prejudicando os negros da cidade: "No restaurante onde eu estou trabalhando, na cozinha só tem latinos trabalhando, só tem mexicano ilegal. Aparecem vários negros lá, preenchendo formulários para trabalhar no restaurante, mas eles nunca chamam os negros, chamam os latinos. O mexicano ilegal aceita um salário menor e também trabalhar mais horas."
A questão racial se transformou em um dos centros da campanha democrata depois que Obama fez um discurso em que disse que os Estados Unidos precisam encarar a questão.

Mas uma análise do voto dos dois eleitorados nas primárias até agora mostra uma divisão clara nas preferências dos dois grupos. Os negros apóiam em peso Obama, e Hillary conta com a vantagem do voto latino. Analistas, aliás, atribuem a vitória de Hillary nas prévias em Estados populosos como a Califórnia e o Texas ao apoio maciço das pessoas de origem latino-americana.

Nos dois Estados a candidata venceu Obama com uma diferença de dois votos latinos para um. Obama só venceu em um Estado com população significativa de hispânicos - Illinois, sua base. Mesmo assim com uma margem bem estreita: 50% dos latinos votaram na prévia em Obama, contra 49%.

As explicações para a preferência dos latinos por Hillary variam. Há quem diga que os hispânicos são mais preconceituosos contra os negros, outros que os latinos são desconfiados e preferem votar em quem já conhecem, a ex-primeira-dama americana; outros, que os latinos são gratos pelos anos de Bill Clinton na Presidência, e outros argumentam que os latinos simplesmente não conhecem Obama, e que, quando o conhecerem, pensarão em votar nele.

Uma coisa é certa: os dois eleitorados são peças fundamentais no quebra-cabeças eleitoral dos Estados Unidos. E quem se um candidato conseguir ter um apelo para negros e latinos, seguramente terá um pé na Casa Branca.

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