América Latina despertou para a violência contra mulher, diz ativista argentina

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Organizadora de protestos feministas que se espalharam pelo continente, escritora Hinde Pomeraniec exalta debate crescente e "conscientização social" sobre o feminicídio

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Protesto reuniu milhares de pessoas na Argentina no início do mês
Reuters
Protesto reuniu milhares de pessoas na Argentina no início do mês

A mobilização de milhares de pessoas em protestos pelo continente mostra que a América Latina "despertou para a violência contra a mulher", afirma uma das organizadoras das manifestações conhecidas como Ni Una Menos (Nenhuma a menos), nascidas em Buenos Aires e replicadas em outros países da região.

"A América Latina despertou para esta violência que antes parecia normal, parecia ser parte do nosso cotidiano", diz à BBC Brasil a jornalista e escritora Hinde Pomeraniec, parte de um grupo de dez mulheres que convocou os protestos.

"Recentemente, a marcha Ni Una Menos ocorreu em outros países. Foram realizadas manifestações no México e na Colômbia, por exemplo", acrescentou a ativista, que acompanhou os protestos ocorridos recentemente no Brasil após o estupro coletivo de uma adolescente de 16 anos no Rio.

Coincidentemente, a segunda edição do protesto argentino foi realizado no início deste mês, mesmo período em que o tema da violência contra a mulher dominou o noticiário brasileiro.

A passeata ocorreu em 3 de junho, exatamente um ano após a primeira – organizada em reação à morte de uma adolescente grávida, assassinada e enterrada no quintal da casa do namorado, confessado por ele e que chocou os argentinos.

Em muitos casos, famílias inteiras, incluindo crianças pequenas, aderiram ao protesto. O movimento, organizado pelas redes sociais, ganhou apoio dos principais comunicadores do país.

Familiares das vítimas e mulheres que sofreram agressões participaram da manifestação levando cartazes com fotos pedindo justiça.

Questionada sobre os desdobramentos práticos das manifestações, Pomeraniec afirma que o movimento tem conseguido alertar a sociedade para a violência, seja ela física ou não.

"Acho que todos estamos cada vez mais atentos. O feminicídio antes saía nas páginas policiais da imprensa. Agora é em sociedade. Ao mesmo tempo, fica evidente que a polícia já não pode mais definir um feminicídio como crime passional", diz.

Na sua opinião, é um avanço também o fato de a própria palavra "feminicídio" ser conhecida hoje por muitas crianças – o que não ocorria no passado.

"A educação é fundamental porque fatos que antes outras gerações consideravam normais, não são, e as crianças começam a entender isso", diz.

Segundo ela, ao se falar no assunto, as mulheres ameaçadas perdem o temor de denunciar o vizinho e não se sentem mal em tocar a campainha da casa ao lado se escutarem indícios de violência doméstica. "Existe maior conscientização social para o problema".

Mulheres fazem ato contra cultura do estupro no Rio de Janeiro
Tomaz Silva/Agência Brasil - 01.06.16
Mulheres fazem ato contra cultura do estupro no Rio de Janeiro

Mortes

Ainda assim, ela reforça que muitas mulheres ameaçadas acabam mortas, mesmo tendo registrado queixa e solicitado proteção da polícia ou da Justiça.

"Entre uma marcha Ni Una Menos e outra (2015 e 2016), morreram 275 mulheres (vítimas de violência na Argentina)", afirma.

Entre as propostas de seu grupo está a de que homens denunciados por violência sejam obrigados a usar tornozeleiras, para evitar que se aproximem das vítimas – elas próprias já usam um botão antipânico no país.

O dispositivo é entregue pela polícia ou pela Justiça àquelas pessoas que fazem denúncias de agressões ou ameaças sofridas. Elas apertam o dispositivo que diz SOS, e a polícia é imediatamente acionada. Para isso, ela saberá que está sendo monitorada permanentemente pelos órgãos que devem protegê-la.

No entanto, às vezes essa medida não é suficiente. No ano passado, uma professora de educação infantil foi assassinada pelo ex-marido diante dos alunos, sem ter tido tempo de acionar o botão de pânico, explica Pomeraniec.

Índice

A ativista acredita que a cultura machista está tão instaurada no continente que muitas mulheres sequer se dão conta de que são vítima da violência de gênero – só percebem quando são questionadas mais a fundo.

"A violência machista pode se manifestar de várias formas, como uma mulher receber salário menor para um mesmo posto de trabalho, ou ela ser tocada sem ter dado consentimento, ou ser impedida de administrar seu próprio dinheiro, apesar de ter trabalhado para recebê-lo", explica.

As organizadoras do movimento lançaram um Índice Nacional de Violência de Gênero que é para identificar comportamentos arraigados na cultura local, mas nem sempre percebidos como machismo.

"O debate, as manifestações e a informação contribuem para vermos melhor o que está ocorrendo na nossa cultura. Essas ações são fundamentais para que a violência contra a mulher seja extinta".

A jornalista afirma que sindicatos, partidos políticos e outros setores acabaram criando grupos contra a violência depois da primeira edição da Ni Una Menos.

"Esperamos começar em abril do ano que vem a organizar uma manifestação que repercuta ainda mais em toda a América Latina", diz.

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