Por que o cessar-fogo na Síria é tão frágil

Por BBC |

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Se acordo funcionar, diz analista, trégua deverá ser incompleta e parcial; entenda os problemas que podem frustrar negociação de paz após cinco anos de guerra civil

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O cenário está pronto para a potencial implementação de um cessar-fogo na Síria. O governo sírio, os russos, os americanos e seus aliados, além de quase 100 grupos rebeldes – todos parecem dispostos a aderir à trégua.

Síria está em guerra civil há cinco anos; cessar-fogo entrou em vigor na noite de sexta-feira
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Síria está em guerra civil há cinco anos; cessar-fogo entrou em vigor na noite de sexta-feira

A primeira grande interrupção na guerra civil de cinco anos entrou em vigor às 20h (horário de Brasília) desta sexta-feira, com primeiros relatos informando que as linhas de combate estavam silenciosas.

O enviado especial da ONU para a Síria Staffan de Mistura informou que os confrontos haviam "acalmado", mas uma suposta violação à trégua estava sob investigação.

Antes do prazo final para a trégua, o presidente dos EUA, Barack Obama, alertou o governo sírio e a Rússia que "o mundo estaria observando" o desenrolar do cessar-fogo.

Poucas horas após o início da trégua, um carro bomba matou duas pessoas na periferia da cidade de Salamiyeh, controlada pelo governo. Não havia informações sobre autores do ataque, divulgado pela mídia do governo sírio.

Se o acordo realmente funcionar, esse cessar de hostilidades – alguns preferem chamar de trégua temporária – será incompleto, parcial e, acima de tudo, frágil.

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Apenas para começar, há diversos conflitos ocorrendo na Síria:

- Há uma guerra pelo futuro controle da Síria. Ela opõe o regime sírio e aliados a rebeldes e apoiadores como a Turquia e os países do Golfo.
- O Ocidente trava uma luta contra o autoproclamado Estado Islâmico.
- Além disso, a Turquia está lutando contra uma expansão curda na região.

Trégua temporária

O problema número um é que a trégua proposta é apenas parcial.

Ela só se aplica a um dos três conflitos – entre o regime sírio e seus opositores rebeldes.

O cessar-fogo exclui especificamente a campanha militar contra o Estado Islâmico e os grupos extremistas da Frente al-Nusra, ligada à Al-Qaeda.

Então, no melhor dos cenários, os ataques aéreos da Rússia e do Ocidente contra os dois grupos vão continuar.

Porém, é preciso dizer que até agora a Rússia realizou relativamente poucos ataques contra alvos do autoproclamado Estado Islâmico.

Sobreposição de conflitos

E isso leva ao problema número dois: as fronteiras desses vários conflitos na Síria são quase sempre vagas e se sobrepõem.

O regime sírio, por exemplo, já afirmou que não aceitará um cessar-fogo em Daraya, subúrbio de Damasco. O governo alega que as forças opositoras de lá são controladas pela Frente al-Nusra.

Alguns argumentam que isso está errado e que os guerreiros da al-Nusra não são a maioria das forças rebeldes naquela região.

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Mas isso mostra que, mesmo antes do cessar-fogo, o governo sírio procurava justificativa para manter operações militares em áreas onde acredita ter vantagem.

A Rússia também argumenta ter o direito de continuar com operações aéreas contra grupos apontados como extremistas pela ONU, como a al-Nusra.

Aos olhos de Moscou qualquer grupo rebelde que tiver ligação com a Frente al-Nusra pode sofrer um ataque.

Ao menos até agora, para os russos, a maioria das forças que se opõem ao presidente sírio Bashar al-Assad têm caído na categoria de "terroristas" em algum momento.

Papel da Turquia

A complexidade do conflito envolvendo os curdos no norte da Síria leva a uma terceira série de problemas para qualquer cessar-fogo.

Lá, guerreiros curdos apoiados tanto por americanos e até certo ponto pelos russos estão progredindo em uma região que faz fronteira com a Turquia.

Por causa disso, o alarme está soando em Ancara.

O premiê Ahmet Davutoglu deixou claro que não poderia se comprometer com qualquer cessar-fogo quando há um cenário de ameaça à segurança da Turquia.

"Nós iremos tomar todas as medidas necessárias contra o YPG (guerreiros curdos) e o Daesh (Estado Islâmico) quando sentirmos que for necessário."

Ganha e perde

Esse é o lado problemático. Quem realmente se beneficiaria com um cessar de hostilidades? Ou ao menos de uma série de paradas na luta?

Certamente a população apreciará o acordo, especialmente se alimentos e suprimentos começarem a chegar a cidades e vilarejos isolados pelos combates.

Rebeldes pressionados podem aproveitar um período de pausa para se reagruparem.

A Rússia pode ao menos ver isso como um início do jogo diplomático – com negociações que reconheçam que o regime de Assad irá perdurar.

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Mas pelo que se viu da diplomacia russa na Ucrânia, podemos esperar tanto períodos de cessar-fogo como erupções de luta violenta – enquanto forças do governo sírio tentam expandir e consolidar suas posições.

Futuro

A eficácia do cessar-fogo também depende de até que ponto as forças do governo sírio e seus aliados atingiram objetivos no campo de batalha.

Na prática, ninguém está muito otimista sobre a extensão da trégua.

O secretário de Estado americano, John Kerry, foi franco ao avaliar a situação: ele já falou de um plano B caso o atual esforço diplomático falhe.

Mas, ao explicar a situação a senadores americanos, disse que uma das medidas sugeridas – o estabelecimento de uma zona de segurança no norte da Síria – requereria, nas estimativas do Pentágono, o emprego de 15 mil a 30 mil militares.

Ele alertou sobre possível agravamento da situação caso a negociação de paz falhe. Disse também que pode já ser muito tarde para garantir a integridade territorial da Síria.

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