Pressão interna fez Brasil mudar política com a Venezuela, diz especialista

Por Lucas Alves - iG São Paulo |

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Carolina Silva Pedroso, professora de Relações Internacionais, diz que crise política venezuelana pode fazer com que oposição crie plebiscito para revogar mandato de Maduro

Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reconhece resultado das eleições legislativas
Fabio Pozzebom/Agência
Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, reconhece resultado das eleições legislativas

O cenário político e econômico conturbado da Venezuela fez o Brasil deixar o discurso amenizador de lado e assumir uma postura mais dura. Uma carta divulgada pelo Itamaraty no começo do ano afirmava em tom de alerta que não há espaço na América do Sul para soluções políticas que não respeitem a democracia.

Com a oposição assumindo a maioria da Assembleia Nacional, a pressão sobre o presidente Nicolás Maduro se intensificou. A oposição quer a libertação dos presos políticos pelo regime de Maduro e a abertura econômica enquanto o governo manobra para manter o poder.

Além disso, a situação econômica do país é catastrófica. Neste mês, Maduro decretou estado de emergência econômica, com retração do PIB e inflação nas alturas.  

Com a situação, o iG entrevistou a professora de Relações Internacionais da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação (Esamc) de São Paulo, Carolina Silva Pedroso. Ela é doutoranda pela pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp e PUC-SP) e especialista em Venezuela. Segundo ela, o Brasil alterou sua política com a Venezuela por pressão interna e há inclusive a possibilidade de que a oposição venezuelana convoque um plebiscito para revogar o mandato do presidente. Leia abaixo a entrevista:

iG - O que levou o Brasil a mudar seu posicionamento na política externa com a Venezuela?

Carolina Silva Pedroso: Um dos fatores internos é de que hoje o governo brasileiro não vive um momento favorável. Ele está sendo pressionado pela oposição e pela população. A Dilma tem perdido esse apoio para ter uma política externa mais favorável à Venezuela. A polarização no País está cada vez mais intensa e existe um conflito muito grave entre grupos políticos. Com isso, a diplomacia é pressionada.

Qual a situação da economia venezuelana com o estado de emergência decretado pelo presidente Nicolas Maduro?

É muito grave. Em 2015, a Venezuela apresentou a pior economia do mundo, tiveram mais de 140% de inflação acumulada até outubro e o PIB retraiu mais de 7%. Isso compromete o avanço do chavismo, que é justamente a inclusão social, que hoje já não pode mais ser sustentada com a situação econômica. O que agrava ainda mais é o fato de que o cenário internacional também está bastante desfavorável. A China, que é um dos principais parceiros econômicos do país, está desacelerando no crescimento. O preço do barril do petróleo vem caindo, e essa é a principal atividade econômica da Venezuela.

Quais as principais divergências entre o governo e a oposição?

A oposição tem mudado bastante no decorrer do chavismo. Inicialmente ela se declarava de direita e totalmente contrária ao Chávez, mas algumas conquistas dele foram tão consolidadas que hoje eles não se colocam contrários. O Capriles incorporou na plataforma de campanha a continuidade das políticas sociais com mudanças na economia. Então a principal divergência é na politica econômica. O governo defende um estado forte enquanto a oposição busca uma forma de abertura com o setor privado.

O oposicionista Henry Ramos Allup, novo presidente da Assembleia Nacional, pressiona o governo para mudanças imediatas na condução política e econômica no país
Unidad Venezuela
O oposicionista Henry Ramos Allup, novo presidente da Assembleia Nacional, pressiona o governo para mudanças imediatas na condução política e econômica no país

No entanto, hoje mesmo os que apoiam o governo estão descontentes e esse foi um dos principais motivos da derrota nas eleições para a oposição. Ela se atribuiu à situação econômica.

Qual a capacidade da Assembleia Nacional, agora comandada pela oposição, em realizar mudanças na Venezuela? Em que tipo de decisões Maduro pode intervir?

O resultado oficial das últimas eleições deu maioria absoluta para a oposição na Assembleia, então eles podem destituir autoridades, inclusive do judiciário, e podem aprovar leis como a da Anistia, que libertaria políticos que foram presos. Além disso, podem barrar alguma iniciativas do governo.

Até agora, o Maduro conseguia aprovar algumas decisões sem o parlamento. Hoje ele jpa não consegue mais.

No entanto, três candidatos da oposição foram impugnados por compra de votos. Perdendo essas três cadeiras, eles já não tem mais a “supermaioria”. Agora os oposicionistas tentam tornar as candidaturas legítimas e o governo tenta tira-los da Assembleia. Essa maioria é muito importante, porque daria à oposição a chance de convocar um plebiscito para revogar o mandato de Maduro.

Existe a possibilidade desse plebiscito ser convocado?

Sim. O Maduro tem pouco apoio internacional e isso é um agravante. Pensando na atuação dele agora com menos apoio popular, o governo dele realmente vai ter dificuldades pra se manter. É possível que a oposição consiga convocar plebiscito para tirá-lo do poder, para isso eles precisam coletar uma quantidade de assinaturas que correspondem ao eleitorado que o elegeu, e a partir dessa coleta um plebiscito seria convocado. A situação econômica deixa as pessoas mais nervosas, então existe essa possibilidade.

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